The Clock Narrows
A chuva na Mooca não lavava nada; apenas transformava a fuligem das fábricas em uma lama espessa que grudava nos sapatos de Rafael. Ele forçou a porta de correr do Galpão 13, o rangido metálico morrendo sob o estalo dos trovões. O Enforcer estivera ali. As marcas de pneus largos ainda brilhavam na poça de óleo, mas a água já as apagava. Rafael acendeu a lanterna do celular, o facho varrendo o vazio. A caixa de metal, a evidência que deveria estar ali, sumira.
Ele se agachou, os joelhos batendo no cimento frio. Sob um pedaço de lona, uma folha de papel solta, encharcada, resistia ao tempo. Ele a resgatou com a ponta dos dedos trêmulos. A tinta azul estava borrada, mas o texto era uma sentença: “Pagamento final – quitação dívida Vasconcelos 1998 / repasse p/ contrato atual Av. Brasil 2025 – mãe presente, assinatura testemunhada.” O estômago de Rafael despencou. A mãe do senador Vasconcelos. A mesma mulher da foto que ele carregava no bolso. O desaparecimento de Clara não era um surto; era uma liquidação de dívidas que atravessava décadas.
O celular vibrou. Uma mensagem de um número bloqueado: “Parabéns, Rafael. O rastro está vivo, mas o tempo morreu. Agora são quatro dias. A tia já sabe o preço.”
Rafael correu para o carro. Discou para Tia Lúcia. O som da respiração dela era um soluço contido.
— Rafael, nã
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