Chapter 4
A chuva em São Paulo não lavava nada; apenas acumulava a fuligem das décadas sobre o asfalto da Rua 13 de Maio. Quando Rafael estacionou, o motor do carro estalou sob o capô, um som metálico que soou como um tiro no silêncio tenso da quadra. Ele não precisou subir os degraus da varanda da Tia Lúcia para saber que o pacto de sigilo fora rompido. A porta da frente estava entreaberta, o batente de madeira lascado onde a fechadura fora arrombada com precisão cirúrgica.
Rafael não sacou arma — ele não tinha uma — mas sua mão agarrou o celular com força suficiente para que os nós dos dedos embranquecessem. O prazo de três dias para a vida da tia agora era uma pulsação constante em suas têmporas. Ele entrou, o cheiro de lavanda habitual sendo sufocado por um odor metálico de poeira levantada. A sala estava um caos metódico. Não era um saque de vandalismo; era uma busca de quem sabia exatamente o que procurar. Os quadros da família, que Lúcia mantinha como relíquias, estavam virados contra a parede. O estofado do sofá fora rasgado, o enchimento espalhado como neve suja. No escritório, em meio aos papéis revirados, ele encontrou o que os invasores deixaram para trás: uma antiga agenda de costura de Lúcia, aberta em uma página específica. Anotações à mão, datadas de 1998, ligavam o nome de um ex-secretário de transportes ao consórcio da Linha 6. A invasão não fora para roubar o arquivo; fora para plantar medo. Lúcia não estava ali, e Rafael percebeu, com um aperto gélido no peito, que não podia mais protegê-la dentro daquela casa.
Duas horas depois, o letreiro de neon do Hotel Alvorada, na Mooca, piscav
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