O Topo da Escada
O ar na Arena de Ascensão de Sangue tinha gosto de cobre e ozônio ionizado. Kaelen estava de joelhos, o peito subindo e descendo em espasmos, enquanto a poeira de cristal de essência — outrora o combustível da elite — flutuava como cinzas radioativas ao seu redor. As runas de contenção, antes vibrantes em azul imperial, eram agora apenas cicatrizes negras nas paredes de pedra. Ele não tinha vencido apenas o desafio; ele tinha quebrado o motor da própria Academia.
— Kaelen, levante-se — a voz de Lívia cortou a névoa. Ela surgiu das sombras sob o arco da arquibancada sul, seus olhos varrendo a arena com precisão cirúrgica. — A equipe de contenção da seita externa está a menos de dois minutos daqui. Você não é mais um 'Recurso de Classe S', Kaelen. O sistema agora te marca como uma anomalia. Se eles chegarem, seremos apagados como erros de código.
Kaelen forçou-se a ficar de pé, sentindo a energia violeta da 'Conversão de Escassez' ainda pulsar em suas veias. Ele não respondeu; ativou o selo de acesso que roubara, forçando uma saída de emergência pelos túneis de serviço. O caminho estava em chamas, mas a autoridade do selo ainda mantinha as portas abertas. Eles correram para o Nível Médio, onde o caos já se instalara.
Valerius bloqueava o corredor principal. O 'Círculo de Prata' em sua mão emitia um brilho instável, tentando desesperadamente restaurar o fluxo de essência que Kaelen havia drenado. O rival parecia um governante sem reino, o rosto contorcido em uma máscara de desdém que não escondia o tremor em suas mãos.
— Você é apenas um erro de sistema, Kaelen! — Valerius sibilou, canalizando essência para o artefato. — A administração vai limpar sua existência antes do anoitecer.
Kaelen não parou para argumentar. Ele liberou a assinatura energética residual que trazia da arena. Quando o Círculo de Prata tentou drená-lo, o artefato colapsou sob o peso da instabilidade violeta. O metal estalou, fragmentando-se em mil pedaços que caíram no chão como vidro comum. Valerius caiu de joelhos, a linhagem e o privilégio desmantelados em um único gesto de força bruta. Kaelen passou por ele sem olhar para trás; Valerius não era mais um obstáculo, apenas um ativo inútil descartado pela própria Academia.
Na Câmara do Núcleo, o Mestre Elian mantinha as mãos espalmadas sobre o pilar central. O mecanismo de drenagem uivava, tentando desesperadamente alimentar a Fronteira de Guerra com a essência da Academia.
— Você é uma anomalia, Kaelen — disse Elian, a voz fria. — Junte-se a mim, assuma o comando da guarnição externa, e eu enterro seu registro. Você terá o poder que sempre mendigou.
— Eu não mendigo poder — Kaelen sibilou, cravando a mão no núcleo de cristal. — Eu cobro o preço do que vocês roubaram.
Ele injetou sua energia violeta no pilar. O feedback foi instantâneo: o mecanismo de colheita explodiu em uma onda de choque que quebrou os selos da Academia. O teto da câmara cedeu, revelando o céu noturno, mas não havia estrelas lá fora. Havia naves, emissários da Fronteira, observando o colapso da fazenda de talentos.
Kaelen e Lívia atravessaram os portões principais enquanto a estrutura da Academia desmoronava atrás deles. O sistema de ranking estava morto, e com ele, a segurança da servidão. O céu escureceu com a chegada das forças que operam além dos muros. Kaelen olhou para o horizonte, sentindo o peso de um novo alvo em suas costas. A ascensão havia começado, mas o custo era uma guerra que ele mal podia compreender.