A Escada de Vidro
O Salão de Audiências da Academia de Ferro não era mais um tribunal; era um sarcófago de metal em colapso. O ozônio queimava as narinas de Kaelen, um subproduto químico do sistema de defesa que entrava em pânico. Acima, as luzes de status da Academia piscavam em um carmesim doentio, o código da colheita biológica exposto para cada cadete e instrutor ver. A dívida de seu pai, a âncora que tentara afogá-lo por anos, não era apenas uma falha contábil; era a prova de que a instituição inteira era um abatedouro de talentos.
Mestre Thorne, o único homem capaz de manter a calma enquanto o chão tremia, não olhou para os monitores onde Soraia Valente era, finalmente, arrastada para o isolamento. Ele olhou para Kaelen. Thorne estendeu uma mão ossuda, depositando uma chave de acesso de emergência na palma de Kaelen. O metal negro vibrava com uma frequência que parecia, de algum modo, reconhecer o componente proibido fundido ao motor do Sucata-09.
— A colheita foi apenas o estágio um, Vane — a voz de Thorne soou como engrenagens enferrujadas. — Se você quer sair daqui vivo e com as respostas que seu pai enterrou, suba a Escada. Não olhe para trás.
Kaelen não agradeceu. Ele correu. O caminho para o Hangar Principal era um labirinto de alarmes e servidores em curto-circuito. No centro do hangar, Soraia Valente o esperava. Ela não era mais a herdeira intocável; seu traje de combate estava chamuscado, o visor rachado, revelando um olho injetado de ódio. Ela bloqueava o acesso ao Sucata-09 com a precisão de um predador encurralado.
— Você destruiu o meu futuro, Kaelen — ela sibilou, sua voz amplificada pelo sistema de som do mech. — A Elite não se importa com a verdade. Eles se importam com a eficiência. Você é apenas um erro de cálculo que eu vou purgar.
Soraia investiu. O impacto do seu mech contra o corredor fez o piso de liga metálica ceder. Kaelen não lutou com honra; ele lutou com a desesperança de quem não tinha mais nada a perder. Ele ativou o componente de geometria impossível. O Sucata-09 gemeu, a carcaça vibrando até os limites da integridade estrutural. Com um movimento que desafiava a física dos mechs padrão, Kaelen contornou a guarda de Soraia, injetando uma sobrecarga de dados purgados diretamente no núcleo de energia dela. O mech de Soraia travou, os sistemas congelando em um grito eletrônico enquanto ela era arremessada contra a parede de contenção.
Kaelen não parou para ver se ela sobreviveria. Ele saltou para o cockpit do Sucata-09. A máquina rugiu, o núcleo proibido pulsando em sincronia com seu próprio coração. Ele disparou em direção à Escada de Provas. A subida era uma loucura de aço e fogo. Guardiões automatizados — máquinas de guerra de classe B — surgiam das paredes, seus sensores travando em sua assinatura. Kaelen os estilhaçava um a um, usando cada grama de energia para forçar os degraus magnéticos. A cada nível que ele superava, a dívida em seu HUD retrocedia, mas o custo era visível: a fuselagem do Sucata-09 estava derretendo sob o estresse.
Quando ele finalmente atingiu o cume da Torre de Provas, o silêncio era mais aterrorizante que o caos. Ele emergiu na plataforma de observação. Abaixo, a Academia de Ferro era um esqueleto de metal em chamas. Soraia, que o seguira em um mech de reserva, surgiu na plataforma, mas não atacou. Ela desativou os giroscópios, deixando o gigante de metal inclinar-se em um gesto de trégua forçada.
— Olhe para cima, Vane — ela disse, sua voz falhando. — A Academia não era para o nosso sucesso. Era para o nosso recrutamento.
Kaelen olhou. Acima das nuvens de fumaça da Academia, o céu não estava vazio. Uma frota de naves de guerra, silhuetas negras contra o horizonte de cinzas, pairava sobre a instituição. A colheita biológica não era o fim; era o teste de seleção para uma guerra externa que acabara de chegar às portas da Academia.