Zona de Exclusão: O Setor de Dívida
O zumbido do Mark-IV não era apenas mecânico; era o som de uma falência iminente. Kaelen sentiu uma pontada lancinante na base da coluna, onde a técnica proibida se fundira ao seu sistema nervoso. Eram 04:00 da manhã. O ar no hangar da Academia cheirava a ozônio e desespero. Seu mech exibia uma assinatura térmica inconstante, uma mancha irregular que qualquer inspetor da Mestra Vala identificaria como sabotagem. Ele tinha quarenta e oito horas até a auditoria de ranking. Se a oscilação de energia fosse detectada, a dívida de 4.200 Éter-Créditos deixaria de ser um número no painel para se tornar o pretexto de sua execução pública.
Kaelen abriu o painel de controle. O suor frio escorria, misturando-se à graxa. Ele tinha uma escolha: reduzir a carga do núcleo e perder a sincronia de 41% que tanto lhe custara, ou realizar um desvio de ventilação perigoso, sacrificando a blindagem térmica para mascarar o calor. Ele conectou o cabo de interface. O choque de energia percorreu sua espinha como ácido. A dor foi imediata, uma queimadura química que parecia corroer sua vontade. Ele forçou o sistema de resfriamento a redirecionar o calor residual para os dissipadores externos. O mech gemeu, mas a assinatura térmica estabilizou. Ele estava pronto para a Zona de Exclusão, mas seu equipamento agora era um castelo de cartas pronto para desabar.
Na entrada da Zona, o ar tinha gosto de cobre. Jiro estava a poucos metros, o brilho de seu rifle de pulso traçando um arco vigilante. — Você está atrasado, lixo — a voz de Jiro ecoou entre as carcaças de metal. Kaelen não respondeu. Ele cravou os dedos no metal corroído e ativou o Sifão-Vácuo. A técnica proibida rugiu, uma drenagem brutal que fez o Éter-Crédito bruto fluir para seu núcleo. O pico de energia foi violento; faíscas estalaram, iluminando a carcaça de um mech caído. Jiro deu um passo à frente, alarmado. — O que você está fazendo? Você está drenando a infraestrutura da zona? Isso é sentença de morte!
Um chiado metálico interrompeu a tensão. Os 'Liquidados' — ex-alunos cujos núcleos foram drenados até a loucura — cercaram-nos. O líder, com o emblema da Academia corroído no peito, arrastou-se até Kaelen e estendeu um chip de dados desgastado. — A Academia não colhe apenas créditos — sibilou o Liquidado, sua voz uma mistura de estática e desespero. — Eles colhem o tempo de vida. Este posto de controle… ele não extrai energia, ele extrai a nossa essência para a elite.
Kaelen guardou o chip sob a placa de blindagem. Jiro aproximou-se, os sensores varrendo a cena. — O que você estava escondendo? Sua assinatura oscilou. Se a Vala descobrir esse núcleo proibido, não será apenas a dívida que te levará à liquidação. Kaelen transferiu uma fração do Éter-Crédito que extraíra para o chip de Jiro. — É sua parte pelo silêncio. Temos uma auditoria em 48 horas. Se eu cair, o segredo da sabotagem no seu próprio Mark-IV cai comigo.
Jiro hesitou, a ganância lutando contra o desprezo. Antes que pudesse responder, a frequência da Academia invadiu o canal com a voz fria de Mestra Vala: — Candidato Kaelen, detecção de atividade não autorizada confirmada. Sua auditoria foi antecipada. Prepare-se para uma prova de combate pública. Se não comparecer, sua liquidação será imediata.
Kaelen sentiu o peso do chip. O mistério da dívida era maior do que qualquer ranking, e a próxima prova seria o palco onde ele teria que decidir se morreria como um número ou se usaria a técnica proibida para quebrar a própria escada.