O Custo do Sucesso
O zumbido metálico nos ouvidos de Kaelen não cessava, um eco residual da sobrecarga de energia que quase fundira seu sistema nervoso ao Mark-IV. De volta ao dormitório do Escalão Superior, o luxo estéril do ambiente parecia uma ofensa. O ar-condicionado de alta performance não conseguia dissipar o calor febril que emanava de sua pele; seus capilares estalavam sob a pressão residual da sincronia de 41%. Ele caiu sobre a bancada, as mãos tremendo com uma violência que ele lutava para conter. O monitor de sinais vitais da Academia, embutido na parede como um olho clínico, pulsava em um tom âmbar constante: Instabilidade detectada. Se o nível de Éter-Crédito em seu núcleo não se estabilizasse antes da auditoria de 48 horas, o sistema não apenas o expulsaria; ele o liquidaria como um ativo falido.
Kaelen alcançou o compartimento oculto sob o piso, seus dedos roçando o último item de valor que lhe restava: um cronômetro de precisão quântica, herança de um tempo em que ele ainda acreditava em mérito. Sem hesitar, ele o inseriu no terminal do mercado negro. O saldo de sua conta subiu, mas o custo foi imediato: o terminal consumiu o objeto, liberando um frasco de estabilizadores químicos de grau militar. O líquido viscoso ardia como ácido ao ser injetado no porto de acesso do antebraço. A dor foi um clarão branco, mas, segundos depois, a vibração em seu peito diminuiu. O sistema da Academia não era um educador; era um agiota biológico, monitorando até a profundidade de seu sono para garantir que nenhum aluno rendesse menos do que o esperado.
Uma batida seca na porta interrompeu o silêncio. Antes que Kaelen pudesse responder, Jiro entrou. O prodígio da elite não parecia o homem que fora humilhado na arena horas antes. Ele vestia o uniforme de gala, com o brasão da linhagem bordado em fios sintéticos que custavam mais do que a dívida de Kaelen.
— O ar aqui em cima é mais rarefeito, não é? — Jiro varreu o quarto com uma precisão cirúrgica, parando no frasco vazio sobre a bancada. — Você parece exausto, Kaelen. Ou talvez apenas sobrecarregado por uma técnica que seu corpo não deveria suportar.
Kaelen forçou-se a ficar de pé, a dor ainda latejando como um lembrete de que cada ganho tinha um preço.
— O que você quer, Jiro? A derrota na arena não foi suficiente?
— A arena foi um erro de cálculo — Jiro deu um passo à frente, a voz baixando para um sussurro carregado de ameaça. — Eu sei o que você fez com o núcleo do seu Mark-IV. A assinatura de energia que você emitiu na prova não é padrão. Minha família está me pressionando para erradicar qualquer 'anomalia' que ameace o prestígio da nossa linhagem. Mas, se você me ajudar a contornar as falhas de sincronia que você mesmo apontou no meu modelo, talvez eu possa esquecer o que vi. Caso contrário, a próxima auditoria será a última vez que você verá a luz do dia fora de uma câmara de liquidação.
Kaelen sentiu o peso da chantagem. Jiro não era apenas um rival; era um peão desesperado, tão pressionado quanto ele próprio.
— Você está me pedindo para sabotar a Academia em troca de silêncio? — Kaelen perguntou, a voz fria.
— Estou lhe oferecendo uma aliança. Ou a ruína total. Escolha.
Jiro saiu sem esperar resposta, deixando o ar carregado com a promessa de sabotagem. Kaelen sabia que não tinha escolha. Ele precisava de informações antes da missão na Zona de Exclusão. Ao sair pelos corredores de manutenção, um labirinto de vapor e ozônio, ele foi interceptado por um homem de vestes desbotadas: um 'Liquidado'.
— Você caminha como quem carrega um mech nas costas, garoto — o homem sibilou das sombras. Ele estendeu um chip de dados corroído. — A Zona de Exclusão não é para extração de recursos, Kaelen. É um triturador. A dívida que você carrega? Ela foi desenhada para nunca ser paga. Eles não querem seu Éter; eles querem transformar sua biologia em combustível para a próxima geração da elite.
Kaelen olhou para o chip, depois para o caminho que levava à Zona. A ascensão era uma armadilha, e o próximo nível da escada estava pronto para devorá-lo.