Ascensão Forçada no Ranking
O ar na oficina do Setor de Dívida tinha gosto de cobre e ozônio. Kaelen observava o monitor do Mark-IV: o núcleo de pulso, uma peça proibida que custara mais do que ele ganharia em três anos de serviço, pulsava com uma cadência errática. Cada batida era um espasmo de dor que subia por sua coluna, um lembrete físico de que o mech não estava apenas operando; ele estava sendo forçado a evoluir.
Faltavam quarenta e oito horas para a auditoria de ranking. Se a sincronia não atingisse os 35% exigidos, a Academia liquidaria seus ativos — o que, na prática, significava vender seus órgãos para quitar os 4.200 Éter-Créditos pendentes.
Kaelen limpou o sangue do nariz com o dorso da mão, manchando a interface tátil. Ele não tinha margem para cautela. Com um comando mental, ele sobrecarregou o sistema de exaustão, forçando o núcleo a drenar sua própria vitalidade para estabilizar a saída de energia. O Mark-IV vibrou, emitindo um zumbido grave. A sincronia saltou para 41%. O custo foi imediato: uma tontura paralisante que o obrigou a se apoiar na carcaça metálica.
Na Arena Central, a atmosfera era de escárnio. Jiro aguardava em seu "Vórtice Dourado", um mech de elite que reluzia sob a luz artificial, cercado por uma aura de superioridade inata. Quando Kaelen entrou, o Mark-IV, remendado e marcado por soldas grosseiras, parecia um insulto à estética da Academia.
— Desista agora, lixo — a voz de Jiro ecoou pelos alto-falantes. — Se o seu motor explodir na pista, a conta do conserto do chão virá do seu próprio sangue.
Kaelen não respondeu. Ele sentiu o núcleo pulsar contra suas veias, uma conexão que desafiava a lógica da Academia. Quando o sinal de partida soou, o Vórtice Dourado disparou. Jiro forçou uma manobra de alta pressão, testando os limites do chassi de Kaelen. O Mark-IV gemia, mas, no momento em que a colisão parecia inevitável, Kaelen sobrecarregou o núcleo. Um pulso de energia azul explodiu sob seus pés, impulsionando-o em um ângulo impossível. Kaelen surgiu atrás de Jiro, a ponta de seu propulsor roçando a carcaça dourada.
— Você não é nada! — Jiro rugiu, tentando girar, mas Kaelen ativou a Técnica do Vácuo Proibido. Seus dedos dançaram pelo painel, drenando a energia residual dos sistemas de Jiro. O mech inimigo tropeçou, os escudos piscando e morrendo em um estalo seco. Com um impacto bruto, Kaelen jogou Jiro contra as paredes da arena. O sistema de suporte de vida em seu visor piscou em um vermelho alarmante: Dano Crítico.
Jiro deslizou pelo chão, faíscas escapando de seu chassi agônico. Antes que o sistema declarasse a vitória, o rival ergueu a mão trêmula.
— Essa oscilação... não é tecnologia da academia — sussurrou Jiro, a voz distorcida pelo ódio. — Eu sei o que você fez, Kaelen. E sei que você não vai aguentar o preço.
Kaelen foi declarado vencedor, mas o triunfo teve um gosto metálico. Ao ser convocado ao escritório da Mestra Vala, ele encontrou a mulher observando um display holográfico que ditava seu novo valor de mercado.
— Você superou as expectativas, Operador de Risco — disse Vala, sem desviar o olhar dos números. — Mas a Academia não tolera anomalias. Seu sucesso apenas aumentou o seu custo de manutenção. Como novo membro do escalão superior, você está convocado para missões de extração na Zona de Exclusão.
Ela projetou o mapa de um terreno infestado de ruínas e radiação.
— Se não retornar com o carregamento de Éter-Crédito, sua liquidação será imediata.
Kaelen saiu do escritório com o peso da nova missão. Ele havia vencido a prova, mas o degrau que acabara de subir revelava um abismo muito mais profundo. Ao cruzar o corredor, Jiro estava parado na sombra, observando-o com um sorriso gélido. O confronto era inevitável, e o segredo da sua energia proibida estava por um fio.