O Leilão de Sucata Proibida
A chuva ácida sibilava contra o teto de zinco do Mercado Negro, um som constante que Kaelen sentia nos dentes. Cada passo no chão irregular do Setor de Dívida exigia um esforço consciente para não desmoronar. O núcleo em seu peito — agora fundido à tecnologia proibida comprada com seus últimos créditos — pulsava com um calor metálico, uma brasa que queimava em um ritmo alienígena. Ele não podia vacilar. Mestra Vala estava caçando qualquer sinal de irregularidade, e um aluno com um núcleo instável era um alvo fácil para a liquidação.
— O item está aqui, Kaelen? — A voz era de um capanga de Jiro. O brutamontes bloqueava o caminho para o estande de leilões, onde o estabilizador de pulso repousava sobre uma bancada imunda.
Kaelen sentiu uma pontada de agonia no peito, como se agulhas de gelo perfurassem seu sistema nervoso. Ele forçou um sorriso, mantendo a postura rígida.
— Jiro quer o estabilizador, não é? — Kaelen disse, a voz rouca. — Eu não tenho créditos, mas tenho algo mais valioso. Sei por que o pulso do Mark-IV da família dele falha na sincronia acima de quarenta por cento. O código de correção de erro é um ciclo morto.
O capanga hesitou, a ganância superando a lealdade. Kaelen entregou o segredo, pegou o artefato e saiu do mercado antes que a dor o derrubasse. No cubículo de manutenção, o ar cheirava a ozônio e desespero. Kaelen trancou a porta, ignorando o aviso de "Dívida Pendente" que piscava em vermelho. Faltavam quarenta e oito horas para a auditoria de ranking. Ele abriu o compartimento peitoral do seu Mark-IV, removendo a peça obsoleta e encaixando a tecnologia proibida. O metal gritou, e uma descarga de Éter-Crédito bruta percorreu seu sistema. Kaelen caiu de joelhos, a visão escurecendo enquanto o brilho neon do núcleo vazava pelas juntas da armadura. Ele sobreviveu, mas o rastro energético era uma assinatura que ele precisava esconder a qualquer custo.
No dia seguinte, nos corredores da Academia, o encontro era inevitável. Jiro estava encostado em um pilar, observando Kaelen com um desdém estudado.
— O cheiro de lixo reciclado precede você, Kaelen — Jiro zombou, os olhos estreitados sobre o Mark-IV, cujos conectores ainda exibiam o brilho instável da modificação. — Vi os registros do seu último treino. A sincronia subiu quatro por cento em menos de uma hora. O que você enfiou naquele chassi?
Kaelen parou, sentindo o núcleo vibrar como um parasita faminto. O medo era um tique-taque constante, mas ele não recuou.
— Se está tão interessado, por que não testa a eficiência você mesmo na auditoria? Aposto o que resta da minha conta que, desta vez, eu não serei o último da fila.
Jiro riu, uma nota de escárnio que atraiu olhares próximos. — Uma aposta, então? Se você sobreviver ao ranking, eu pago sua dívida. Se falhar, você entrega a carcaça desse mech e desaparece da Academia.
Kaelen aceitou, mas ao se afastar, sentiu o peso da realidade. O núcleo modificado não estava apenas otimizando o Éter; ele estava drenando sua reserva de emergência e sua própria essência vital. A vitória na auditoria era a única porta de saída, mas ele agora percebia que, após esse degrau, a Academia exigiria missões na Zona de Exclusão — um inferno onde o núcleo proibido poderia ser a única coisa que o manteria vivo, ou a primeira que o destruiria.