Saldo Zero: O Preço da Sobrevivência
O relógio de pulso de Kaelen não marcava horas; ele emitia uma pulsação cáustica contra o osso, uma contagem regressiva em Éter-Créditos que drenava sua dignidade a cada segundo. Saldo: -4.200. Status: Liquidação iminente.
Kaelen ajustou os joelhos dentro da cabine claustrofóbica do Mark-IV, um amontoado de metal enferrujado que cheirava a ozônio e desespero. Diante dele, a tela trincada projetava o Campo de Provas da Academia: um cenário de luz estéril onde mechs de elite, polidos como joias, realizavam manobras de precisão que custavam mais em uma hora do que a linhagem de Kaelen produziria em uma vida.
— Kaelen, setor 7. Seu tempo de diagnóstico expirou — a voz de Mestra Vala ecoou pelos alto-falantes, fria e desprovida de qualquer humanidade. Ela observava da torre, uma silhueta impecável contra o céu de neon. — Se o núcleo desse sucateado não atingir a sincronia mínima de 15% agora, a Academia declarará sua matrícula como dívida incobrável. Você sabe o que isso significa.
Kaelen sabia. O exílio para o Setor de Dívida, onde o ar era carregado de poeira metálica e a vida era medida em turnos de mineração até a falência física. Ele fechou os olhos, ignorando a dor aguda que subia por seus braços. A sincronia estava em 12%. O núcleo do mech, cronicamente instável, soltou um estalo metálico de aviso.
— O sistema está colapsando, Mestra — Kaelen forçou a voz, enquanto suas mãos, calejadas e trêmulas, conectavam os cabos de bypass diretamente em suas veias de cultivo. Ele não usou o éter da máquina; ele usou o seu próprio. Um grito silencioso rasgou sua garganta enquanto o fluxo de energia vital forçava a sincronia para 16%. O Mark-IV rugiu, as juntas hidráulicas gemendo em protesto.
— 16% — Vala anunciou, o desdém evidente em seu tom. — Você sobreviveu por 48 horas, Kaelen. Mas não se engane: você é apenas um erro estatístico que estou permitindo existir até que a escassez o quebre definitivamente.
Kaelen não respondeu. Ao descer da cabine, ele mal conseguia sentir as pernas, mas o visor de seu pulso agora exibia um prazo: 47:59:12. Ele não tinha tempo para descanso. O caminho até o Setor de Descarte foi uma jornada de sombras. Entre pilhas de ligas metálicas retorcidas e núcleos de energia exauridos, ele encontrou o leilão de lixo. Foi lá que Jiro o interceptou. O prodígio da linhagem Solar, impecável em seu exoesqueleto polido, bloqueou o caminho.
— Tentando montar um mech com lixo, Kaelen? — Jiro riu, um som seco que atraiu olhares de desprezo. — A Academia vai te descartar com o resto desse entulho em breve. Desista antes que a humilhação custe mais caro que sua vida.
Kaelen ignorou o insulto. Seus olhos estavam fixos em um item esquecido em uma prateleira de radiação nível 4: um núcleo de energia de pulso, coberto por uma fina camada de ferrugem sintética. Era uma técnica proibida, instável e ilegal.
— Lote 402 — anunciou o leiloeiro. — Núcleo de pulso modificado. Lance inicial: 50 Éter-Créditos.
Kaelen levantou a mão. Era tudo o que ele tinha, o valor de sua próxima refeição. Jiro, notando o interesse, aumentou o lance, tentando expulsá-lo pelo preço. Mas Kaelen não recuou. Ele ofereceu um contrato de servidão futura, uma aposta desesperada de direitos de exploração de sua própria energia de cultivo. O leiloeiro, vendo o potencial lucro na tragédia, aceitou.
De volta ao seu hangar, o ar pesava com a estática do artefato. Kaelen trancou a porta. O núcleo pulsava em sincronia com seu próprio coração. Ao tocar o metal, a energia não fluiu; ela invadiu. O artefato era um parasita faminto. Kaelen caiu de joelhos, sentindo a dor excruciante da fusão enquanto seu núcleo de cultivo era drenado à força.
Ele forçou seu próprio núcleo a girar em resistência violenta, tentando estabilizar o fluxo. Se os sensores da Academia detectassem a assinatura proibida, ele morreria antes do prazo. Com um último esforço, a fusão se consolidou. O Mark-IV, antes uma sucata, começou a irradiar uma luz nova, perigosa e superior. O relógio no pulso de Kaelen continuava a contar, mas agora, ele tinha uma arma. A prova de ranking não seria mais sua sentença; seria o início de sua ascensão.