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Chapter 6: O Preço da Lealdade

No escritório, Arthur convence Beatriz a comparecer ao gala do Iate Clube. No evento, ele humilha publicamente Otávio Gusmão revelando provas de insolvência via painéis de LED, destruindo sua reputação diante da elite carioca. Beatriz reconhece a profundidade da estratégia de Arthur e aceita a proteção dele, enquanto a armadilha financeira contra o mentor é acionada para colapso iminente.

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O Preço da Lealdade

A Baía de Guanabara queimava em tons de laranja no fim da tarde. Arthur Valente não via a paisagem. Via apenas o reflexo de Beatriz Lemos no vidro temperado do escritório, os ombros tensos, o tablet apertado contra o peito como se pudesse protegê-la do que viria.

Ele empurrou o convite do Iate Clube sobre a mesa de mogno. O brasão dourado reluziu sob a luz indireta.

— Sábado. Otávio estará lá — disse Arthur, voz baixa, sem ênfase. — E você também.

Beatriz ergueu o envelope como se pesasse chumbo.

— Você quer que eu entre no território dele? O homem que financia metade das mesas daquele salão? Minha carreira não sobrevive a um erro público, Arthur.

Ele caminhou até a janela. O reflexo dela tremulou quando ele parou ao lado.

— A carreira dele também não. Otávio precisa dessa aquisição para tapar os buracos que abriu nos últimos dez anos. Sem a imagem de vencedor, os credores vão cair em cima como urubus. E eu tenho os números que provam cada rombo.

Beatriz ficou em silêncio. A ambição que a movia — provar que valia mais que o sobrenome dos homens ao redor — lutava contra o medo real de ser expulsa do circuito. Ela baixou os olhos para o convite, depois os ergueu para Arthur.

— Se eu fizer isso, não tem volta.

— Não tem mesmo — respondeu ele, sem sorrir. — Mas volta nunca foi o plano.

Ela assentiu uma vez. O pacto estava selado.

No sábado, o salão principal do Iate Clube cheirava a charuto cubano, perfume francês e suor disfarçado por colônia cara. Luzes suaves refletiam no mármore branco. Arthur ajustou o punho da camisa preta e observou Otávio Gusmão atravessar a multidão como quem ainda era dono do lugar.

O ex-mentor parou a dois metros dele, copo de uísque na mão, sorriso largo demais.

— Arthur Valente. Soube que anda brincando de conselheiro. Que fofo. Ainda acha que papelada substitui capital de verdade?

A voz carregava a mesma condescendência de anos atrás, aquela que um dia fazia Arthur baixar o olhar. Agora, ele sustentou o olhar sem piscar.

— Capital é relativo, Otávio. Especialmente quando a maior parte dele é fumaça. Como anda a liquidez das suas empresas de fachada? Ouvi dizer que a margem está mais apertada que colarinho de camisa emprestada.

Otávio deu uma risada curta, mas o canto do olho tremeu. Ele tomou um gole longo demais.

— Rumores são para quem não tem poder de narrativa, garoto. Eu ainda controlo esta mesa.

Beatriz surgiu ao lado de Arthur, postura reta, tablet escondido sob a pasta de couro. Não falou. Apenas olhou para Arthur e tocou o canto da tela com o polegar.

Arthur inclinou a cabeça de leve.

— Execute.

Os painéis de LED que exibiam renders da revitalização costeira piscaram uma vez. Depois, gráficos tomaram conta: extratos, transferências, contas offshore, a cadeia completa de insolvência montada por Otávio ao longo de uma década. Números vermelhos. Datas. Nomes de testas de ferro. Tudo legível em alta definição.

O tilintar de uma taça caindo no mármore foi o único som por três segundos inteiros.

Depois veio o burburinho. Celulares saíram dos bolsos. Mensagens voaram. Dois investidores que conversavam com Otávio há menos de um minuto deram um passo atrás, como se o ar ao redor dele tivesse ficado radioativo.

Otávio virou-se para os painéis, o rosto perdendo a cor sob as luzes frias. O copo escorregou de sua mão e se espatifou.

Arthur não se moveu. Apenas observou o homem que um dia o chamara de pupilo ser cercado por credores que já calculavam perdas em voz alta.

Beatriz ficou ao lado dele na varanda. A brisa do mar carregava cheiro de sal e diesel dos iates ancorados.

— Você tinha isso guardado há quanto tempo? — perguntou ela, voz quase inaudível.

Arthur não tirou os olhos do salão.

— Desde o dia em que ele decidiu que eu era descartável. O conselho era só o aquecimento, Beatriz. O Grupo Investidor é o jogo de verdade. E agora eles sabem que eu não estou mais pedindo licença para jogar.

Ela o encarou por um longo segundo. Não havia mais dúvida nos olhos dela. Havia reconhecimento. O herdeiro negligenciado havia desaparecido. No lugar dele estava alguém que esperava o momento exato para fechar a mandíbula.

— Eles vão retaliar amanhã na reunião — disse ela.

— Que venham. — Arthur ajustou o paletó. — A empresa dele entra em colapso financeiro na segunda. A isca já foi engolida. Agora é só esperar o anzol cortar.

A brisa agitou as cortinas brancas. Lá dentro, Otávio Gusmão tentava ainda sorrir para homens que já olhavam para ele como um navio afundando.

Arthur sentiu o peso do dossiê no bolso interno. Não era mais uma arma. Era uma sentença executada em público.

E o preço da lealdade, ele pensou, finalmente havia sido cobrado.

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