Sombras no Litoral
O restaurante, suspenso sobre as águas da Baía de Guanabara, parecia um aquário de luxo onde os predadores jantavam, ignorando o vidro temperado que os separava do abismo. Arthur Valente observava as luzes dos iates, a calma em seu rosto contrastando com a precisão cirúrgica de Beatriz Lemos ao abrir a pasta de couro sobre a mesa.
— A auditoria de cinco anos não apenas confirmou os desvios de Roberto — disse Beatriz, a voz baixa, quase inaudível sob o jazz ambiente. — Ela revelou um padrão. Alguém alimentou Roberto com informações privilegiadas para desvalorizar a empresa. O alvo final é uma aquisição hostil.
Antes que Arthur respondesse, Mendes surgiu à mesa. Ele sentou-se sem ser convidado, a mão pousada sobre o vidro como se reivindicasse posse.
— Valente. Beatriz — Mendes deslizou um envelope pardo, ignorando o olhar gélido da advogada. — O conselho está em polvorosa, mas eu tenho a chave para o futuro. O mentor que você tanto respeitava no passado, Arthur... ele não esqueceu você. Ele está financiando o desmonte de tudo o que você tenta salvar.
Arthur não hesitou. Ele abriu a pasta de Beatriz, retirou uma cópia autenticada dos registros de movimentação de Mendes e a deslizou de volta sobre o envelope de chantagem.
— Você não trouxe uma chave, Mendes. Trouxe uma confissão — Arthur disse, a voz desprovida de qualquer ameaça, o que a tornava mais aterrorizante. — Se esse dossiê chegar à Polícia Federal, você não perde apenas o seu assento. Você perde a sua liberdade. Saia antes que eu decida que a sua colaboração não é mais necessária.
Mendes levantou-se, pálido, e retirou-se sem uma palavra. Beatriz observou o homem se afastar, os olhos fixos em Arthur.
— Você está jogando um jogo perigoso. Se ele for apenas um peão, quem move a peça principal?
Dentro do carro blindado, sob a chuva que transformava a orla em borrões de neon, o silêncio era uma lâmina. Beatriz, com o laptop aberto, cruzava os dados com os arquivos que Mendes deixara escapar.
— É impossível — sussurrou ela, as pontas dos dedos hesitando. — As transferências foram mascaradas por três camadas de offshores. Mas, se cruzarmos com a aquisição hostil... — Ela virou a tela. Uma linha de crédito brilhava em vermelho, ligada a uma holding nas Ilhas Cayman. O padrão de assinatura digital era inconfundível. Era a caligrafia financeira de Otávio Gusmão, o mentor que ensinara Arthur a ler contratos antes mesmo de ele saber dirigir.
— O mentor — a palavra saiu como um suspiro amargo de Arthur. — Ele não está tentando apenas comprar a empresa. Ele está tentando apagar a minha existência corporativa.
De volta ao escritório no 40º andar, a tensão entre os dois era palpável.
— Você está jogando com fogo — Beatriz alertou, enquanto deslizava o dossiê da auditoria sobre a mesa de mogno. — Se o conselho descobrir que estamos usando a empresa como isca, eles nos destruirão legalmente antes do amanhecer.
— Eles já estão destruídos, Beatriz. Só não sabem disso ainda — Arthur respondeu, tocando a cicatriz fina em seu pulso, um lembrete físico da última vez que confiara em Gusmão. — Vamos inflar o valor dos ativos com dados controlados até que ele não consiga resistir ao bote. Ele quer a revitalização costeira? Vamos dar a ele uma armadilha dourada.
O bipe seco de um celular rompeu o silêncio. Arthur desbloqueou a tela e viu a foto: ele e Gusmão, oito anos atrás, rindo em um evento de gala antes da queda que o retirara do mapa. A legenda era um lembrete cruel: "O aluno nunca supera o mestre. Ele apenas se torna o próximo sacrifício."
Arthur fechou a mão sobre o aparelho, sentindo o calor do metal. A humilhação sofrida durante anos, as portas fechadas e os sorrisos falsos de Gusmão não eram mais traumas, mas combustível. Ele olhou para Beatriz, que o observava com um novo e inquietante respeito. A guerra não era mais pelo conselho; era uma vingança pessoal que exigiria a ruína total de seu antigo mestre no próximo evento social da elite carioca.