O Novo Equilíbrio
O zumbido do ar-condicionado, antes uma trilha sonora de autoridade, agora soava como o ruído de um motor em pane. Roberto Siqueira não ocupava mais a cabeceira da mesa. Estava encostado na parede de vidro, uma silhueta pálida contra o azul do litoral. As ondas, que ele costumava observar com a arrogância de quem detinha o horizonte, agora pareciam um território sob a tutela de Arthur Valente.
O silêncio na sala era denso, carregado de um medo que Arthur sentia pulsar na pele de cada conselheiro. O desprezo de outrora fora substituído por uma busca frenética por sobrevivência nos olhares daqueles que, há menos de uma hora, planejavam sua expulsão.
— A ata será lavrada com a destituição imediata por justa causa — a voz de Beatriz Lemos rompeu a tensão, fria e cirúrgica. Ela mantinha os olhos fixos no tablet, onde o rastro financeiro do desvio de doze milhões de reais brilhava como uma ferida exposta. — O Conselho de Ética será notificado em trinta minutos. Não há margem para interpretações.
Arthur não se apressou. Permaneceu sentado, as mãos entrelaçadas sobre o mogno, observando a desintegração da lealdade do conselho. Ele não ofereceu perdão, nem alívio. Com um gesto sutil, indicou a pilha de documentos à sua frente.
— Auditoria completa nos últimos cinco anos — disse Arthur, a voz baixa, porém cortante. — Cada contrato, cada transferência, cada subcontratada. Quero saber exatamente quanto do patrimônio desta empresa foi drenado para alimentar a incompetência ou a ganância de quem se senta a esta mesa.
Os conselheiros trocaram olhares nervosos. A hierarquia havia sido implodida. Beatriz, antes a advogada que servia ao sistema, agora era a arquiteta de sua demolição, conduzindo a auditoria com uma eficiência que não deixava espaço para resistência.
Quando a última porta da sala de reuniões se fechou, abafando os sussurros, Arthur caminhou até o corredor privativo. Ele sentiu uma presença atrás de si: Mendes. O conselheiro exibia um sorriso aveludado, carregado de uma falsa camaradagem.
— O jogo mudou rápido, Arthur. Quase me deu vertigem — disse Mendes, aproximando-se com uma pasta de couro fino. — Roberto era um amador. Mas você... você sempre foi um enigma de paciência.
— A paciência acaba onde a incompetência começa, Mendes — Arthur respondeu, sem se virar. — O que você quer?
Mendes abriu a pasta apenas o suficiente para revelar o timbre de uma holding registrada nas Ilhas Cayman. — Sei quem financiou a sua entrada, ou melhor, quem tentou impedi-la antes de você revelar a sua cláusula secreta. O Grupo Investidor não é apenas um fundo; é uma entidade que devora empresas como a nossa. Eu posso te dar o caminho, o nome do responsável pela aquisição hostil. Em troca, meu assento no conselho permanece intocável.
Arthur aceitou a pasta. O preço da lealdade de Mendes era o controle total, mas Arthur sabia que o conselheiro era apenas um peão. Mais tarde, em seu escritório particular, a penumbra revelava a verdade. Beatriz estava parada junto à janela, a luz fria do monitor evidenciando o cansaço em seus olhos.
— Arthur, você precisa ver a última folha — disse ela, a voz desprovida de hesitação. — O rastro não termina no desvio de Roberto. A assinatura que validou a transferência foi autorizada por um padrão de criptografia proprietário.
Arthur abriu a pasta. Seus dedos roçaram um selo de verificação que ele reconheceria em qualquer lugar. O padrão de segurança era inconfundível. O sangue de Arthur gelou enquanto a identidade do arquiteto por trás da aquisição hostil se tornava clara. Não era apenas o mercado; era o seu antigo mentor. A vingança, que antes visava o conselho, acabara de se transformar em uma guerra pessoal contra o homem que o ensinara a jogar aquele jogo.