O Cerco dos Setores
O visor do cockpit pulsava em 00:41, uma contagem regressiva que não media tempo, mas a agonia do núcleo térmico. O frame, ainda fumegante da prova anterior, tremia com a instabilidade de um animal ferido. Lá fora, no pátio da oficina de Mirela, os homens do clã de Lázaro haviam selado o perímetro. Não era uma visita; era um confisco disfarçado de lei.
Caio observava através do casco rachado: veículos sectários bloqueavam o corredor, drones de leitura zumbiam sob a chuva ácida como moscas sobre carne fresca. A oficina estava cercada antes mesmo de ele conseguir firmar o pé na baia.
— Não saia — Mirela ordenou, a voz seca, os dedos manchados de graxa enterrados no painel aberto do ombro do frame. — Se você forçar agora, o eixo esquerdo colapsa. Você perde a mobilidade e o frame é leiloado em dez minutos.
— Se eu ficar, eles levam tudo — Caio rebateu, a mandíbula travada. O núcleo cuspia calor em pulsos que subiam pela espinha. A blindagem adaptativa, sua única vantagem, cobrava o preço em vitalidade. Ele sentia o corpo mais leve, mas vazio, como se estivesse sendo drenado.
O alto-falante externo estalou com a voz de Tião do Cais:
— Caio Veras, ameaça sob retenção provisória. Entregue o frame para reavaliação voluntária. O setor comercial registrará sua cooperação.
Voluntária. A palavra era um insulto polido. Mirela, sem hesitar, enfiou uma chave de impacto no mecanismo de travamento do guindaste da oficina.
— Se eu abrir, o braço de içamento pode rasgar o casco — ela avisou.
— Abre.
Ela girou a chave. O metal estalou. Caio acionou a blindagem adaptativa. Placas de proteção se fecharam sobre os pontos críticos, o frame assentou, e o torque voltou com uma vibração violenta. Ele sentiu o frio fino do consumo vital no peito, mas avançou. O guindaste caiu, esmagando a grade de contenção. Caio lançou o frame no vão, raspando o ombro contra a soleira em uma chuva de faíscas.
— Captura viva! — Tião gritou.
Caio já estava no corredor externo. A chuva ácida chicoteava o metal. Ele não corria; ele caçava o terreno. Quando três frames do clã de Lázaro fecharam o cerco, ele não disparou. Ele derrubou uma coluna de sustentação sobre o primeiro perseguidor, esmagando-o contra o corrimão. O segundo tentou flanquear, mas Caio forçou a grade lateral a ceder, enviando o inimigo para o vazio do nível inferior.
O mercado sectário de manutenção, ao passar, já exibia seu novo preço em totens digitais:
CAIO VERAS — AMEAÇA LEGÍTIMA | VALOR: 31.900 CRÉDITOS
Sua sobrevivência era agora um ativo especulativo. Mirela, conectada ao leitor de um auditor local, extraiu o fragmento de log do módulo experimental. O painel revelou a verdade: a prova de carga fora sabotada. Alguém inserira uma peça de elite no lixo da feira, esperando que ele morresse tentando operá-la.
— Isso não é sucata — o auditor murmurou, os olhos arregalados. — É prova de interferência institucional.
Eles não pararam. A subida para o terceiro andar era uma espiral de ferro e ácido. Caio usou a própria estrutura da cidade — comportas, cabos, colunas — para destruir os perseguidores que restavam. Cada manobra custava um pedaço da blindagem e um pouco mais de sua energia vital. Quando finalmente alcançou o portal do terceiro andar, o frame era uma carcaça mutilada, mas o painel piscou:
INSCRIÇÃO ACEITA. AVALIAÇÃO PÚBLICA EM ANDAMENTO.
Nara Imanishi observava do corredor superior, o rosto uma máscara de gelo. Caio mal a viu. Seus olhos estavam fixos na nova tela de ambiente que se abria acima do portal. O terceiro andar não era uma prova comum.
CENÁRIO BÉLICO DE DESGASTE CONTROLADO.
E, no rodapé, a nota que fez o sangue de Caio gelar:
TAXA DE DRENAGEM VITAL ATIVA.
O sistema não estava apenas testando escaladores. Estava colhendo-os.