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Chapter 9: O Desafio da Hierarquia

Caio sobrevive à primeira onda de mechas no terceiro andar, descobrindo que o local é uma simulação de guerra que drena a vida dos escaladores. Sua performance força o mercado a reavaliar seu valor, tornando-o um alvo de clãs rivais que temem sua ascensão.

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O Desafio da Hierarquia

O cronômetro de resfriamento marcava 00:41 quando Caio atravessou o arco do terceiro andar. O frame, uma carcaça de metal remendado, soltava baforadas de vapor tóxico pelas juntas abertas. Cada movimento era uma negociação dolorosa entre o aço e sua própria resistência física; a blindagem adaptativa, faminta, sugava energia vital diretamente de seus nervos para manter a integridade estrutural.

Ele apertou os controles, sentindo a luva de interface vibrar com o calor do núcleo. Mirela havia sido clara: se o frame travasse, a Torre o confiscaria em minutos. Atrás dele, o selo do andar fechou-se com um estalo metálico, selando a sentença.

À frente, o terceiro andar não era um corredor, mas uma simulação de guerra comprimida. Trincheiras rasas, colunas de concreto fraturado e faixas de metal exposto compunham um mapa desenhado para moer escaladores. No alto, o placar público atualizou-se em tempo real:

CAIO VERAS: Ameaça Legítima. Valor inflacionado. Vigilância de clãs: alta.

— Eles continuam tentando me vender — murmurou Caio, o gosto de ferro na boca.

— E continuam errando o preço — a voz de Mirela surgiu no canal curto, cortada por estática. — Não deixa a arena te engolir. O centro é uma zona de drenagem. Foca no terreno.

Ele sentiu a pressão no peito antes mesmo da primeira onda. Não era fumaça; era uma sucção invisível, um dreno que roubava fôlego e coragem. Três mechas automáticos desceram dos trilhos superiores, blindagem imaculada, armas acopladas. Superiores. Eficientes.

O primeiro disparou. Caio girou o tronco, sentindo o impacto atravessar o assento e morder sua coluna. Integridade: 38%.

Ele se lançou atrás de um cilindro de concreto. A blindagem adaptativa reagiu, engrossando a área atingida. O preço veio instantaneamente: um enjoo seco, a visão oscilando. O módulo oculto não dava nada de graça.

— Padrão de varredura em três tempos — Mirela avisou. — Eles querem te travar no eixo.

— Então eu saio do eixo.

Caio avançou, pisando em aço solto. O ombro esquerdo falhou, mas a blindagem recalibrou a carga, forçando o movimento. Ele desferiu um golpe de cotovelo no pescoço do primeiro mecha, deslocando o eixo. O segundo robô perdeu o ângulo; o terceiro entrou no corredor estreito. Caio cravou a lâmina de serviço na fenda da blindagem e arrancou o núcleo secundário. O mecha caiu, expelindo faíscas como sangue.

Eficiência de eliminação: +12.

O segundo mecha, mais pesado, atingiu o ombro de Caio. A visão manchou de branco. O cronômetro desceu para 00:39.

— Você está perdendo temperatura rápido demais — Mirela alertou, a voz tensa. — Não briga com o módulo. Ele quer teu ritmo.

Caio fechou os olhos. O mundo se reorganizou. O ruído dos motores tornou-se intenção; a pressão sob os pés, um mapa de terreno. Ele deslizou por uma vala, usando a inclinação para ganhar ângulo. O golpe seguinte atravessou o joelho da unidade inimiga. Em menos de um minuto, o trio estava no chão.

No placar, sua barra subiu. O consumo de energia caiu 18%. Ele estava aprendendo a linguagem da Torre.

— Agora eu sei por que esse frame não morreu antes — Mirela disse, a voz carregada de uma descoberta sombria. — Ele não quer só te proteger. Ele quer te mudar.

Antes que ele respondesse, a arena estalou. Novas unidades de contenção desceram, mais rápidas, feitas para pressionar o erro. A multidão nas galerias começou a murmurar. O desprezo inicial dava lugar a uma torcida nervosa. Eles não viam mais um fracassado; viam um ativo volátil.

— Tem leitura externa no teu sinal — Mirela avisou. — Clã Imanishi e dois setores menores. Eles estão rastreando teu padrão de energia.

Caio avançou contra a nova formação. O impacto foi brutal, custando-lhe mais um segundo de cronômetro. Mas quando ele se manteve de pé, a plateia rugiu. O nome dele começou a subir nos rankings de audiência, transformando-o em um alvo de mercado.

Foi então que ele viu. As paredes laterais projetaram simulações de batalhas passadas. Escaladores caíam sem receber dano direto, apenas desabando enquanto suas barras de carga vital eram sugadas pelo próprio chão.

— Mirela... — a voz de Caio falhou.

— Não é só pressão de arena — ela respondeu, o choque evidente. — O andar inteiro é um sistema de extração. Eles estão drenando a vida dos escaladores para manter a simulação funcionando.

Caio parou por um milissegundo. A verdade era brutal: a Torre não era um teste de habilidade. Era um moinho de carne que transformava esforço humano em combustível. E, ao perceber isso, ele viu os indicadores de mercado no visor piscarem. O pânico dos setores era real. Seu valor estava despencando porque ele não era mais apenas um escalador; ele era uma variável que ameaçava quebrar o sistema.

— Eles vão te desmontar antes que o preço assente — Mirela sussurrou. — Você virou um risco, Caio. E na Torre, riscos são apagados.

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