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Chapter 7: Sobrecarga de Dados

Caio reentra no frame sob colapso térmico iminente, obtém ganho visível de performance com a blindagem adaptativa, mas o log de combate cobra em calor e consumo vital. O clã de Lázaro detecta a assinatura anômala e inicia o cerco à oficina, forçando Caio a escolher entre manter a vantagem ou salvar a máquina.

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Sobrecarga de Dados

O cronômetro de resfriamento marcava 02:14 quando Caio entrou de volta no frame.

Não era um número bonito. Era uma sentença.

A escotilha fechou atrás dele com um baque de metal cansado, e o encaixe neural mordeu sua nuca como um alicate quente. O painel frontal respondeu em vermelho, letras grossas demais para ignorar: TÉRMICA LIMITE / REINÍCIO NÃO RECOMENDADO. A blindagem adaptativa já tinha engrossado o antebraço direito e a lateral do torso, como se o mecha estivesse improvisando ossos novos dentro da carcaça. Bonito, útil, caro demais.

Caio inspirou pelo nariz e sentiu só óleo queimado, plástico aquecido e chuva ácida entranhada nas frestas da oficina.

— Se entrar agora, você me escuta — disse Mirela, sem tirar os olhos do visor tático. Os dedos dela estavam pretos de graxa e vermelhos de irritação. — O log não está só acelerando o sistema. Está tentando mandar na arquitetura do frame. Reescrevendo prioridade, resposta motora, blindagem. Isso não é “ganho”. É o jeito mais elegante de uma máquina te engolir.

Do lado oposto da baia, Tião soltou um riso seco sem humor.

— Eu falei isso quando ele ainda era só sucata com sonho grande — disse ele, girando a chave magnética entre os dedos. — Pro espetáculo, a conta chega com juros. Esse protótipo não foi pensado pra corpo comum. Foi feito pra biologia modificada. Pra alguém que aguenta a máquina puxando de volta.

Caio moveu o pescoço e a dor veio limpa, como uma lâmina curta enfiada entre vértebras. O encaixe neural afinou o mundo; a oficina ficou menor, o som dos ventiladores mais alto, o gotejar da chuva no telhado mais perto. Do lado de fora, a cidade continuava negociando o preço dele. Ali dentro, cada segundo custava calor.

O painel lateral abriu um aviso novo: INTEGRAÇÃO DE DADOS INCONSISTENTE / SOBRECARGA DE MAPA MOTOR.

— Quanto tempo? — Caio perguntou.

Mirela olhou o relógio de bancada, depois o próprio visor.

— Menos do que eu queria. Mais do que eu gosto. — Ela bateu com a unha no diagnóstico. — Se passar de noventa e seis por cento, eu corto a alimentação antes que o núcleo trave.

— E se eu segurar até os cem? — Caio perguntou, já sabendo que a pergunta era uma forma de testar o próprio medo.

Tião respondeu antes dela.

— Aí o frame aprende você à força. E você não gosta do que sobra.

A blindagem adaptativa tomou outro trecho do braço, fechando placas sobre o antebraço com um estalo úmido de travas térmicas. O avanço era mensurável: o braço ganhou densidade, o ombro esquerdo respondeu com mais torque, a resposta do joelho ficou mais rápida no teste automático. Era progresso de verdade, visível no painel e no corpo da máquina. Também era a máquina cobrando em calor e em carne.

Caio assentiu uma vez, curto.

— Então me dá quinze segundos.

Mirela ergueu a sobrancelha, como quem mede não coragem, mas desastre.

— Você pede assim porque quer minha resposta ou porque quer que eu te respeite?

— Porque eu preciso subir antes que tirem isso de mim.

Aquilo bastou. Ela destravou o cabo de manutenção com um movimento seco e bateu a chave de bypass na lateral do compartimento.

— Quinze. Se eu falar “corta”, você corta.

Caio encaixou a palma na interface. O log de combate acordou com violência, e o mundo se partiu em mapas: linha de torque, pressão hidráulica, ruído de blindagem, curva térmica subindo mais rápido que devia. O módulo protótipo respondeu como um animal faminto reconhecendo o sangue no chão.

O frame tremeu.

Depois, obedeceu.

Não com gentileza. Com precisão.

A blindagem adaptativa fechou sobre a carcaça frontal, escurecendo e adensando o metal nas áreas de maior impacto. O antebraço direito mudou de perfil em três pulsações: mais largo, mais pesado, mais preparado para receber fogo. O painel registrou a mudança em números frios, e Caio sentiu a compensação no corpo como uma corrente subindo pelas costelas.

— Viu? — Mirela disse, quase sem querer. — Agora ele está aprendendo com o que você viveu.

— E está cobrando juros — Tião completou.

Como se a oficina tivesse ouvido, o sensor de perímetro disparou.

Um alarme curto, depois outro, e então o corredor externo foi varrido por uma frequência alta que fez as lâmpadas tremerem. A imagem da rua entrou no monitor em blocos quebrados: chuva lateral, poças oleosas, a sombra de três veículos blindados travando a passagem do setor de salvados. Não era cobrança de feira. Era cerco.

Mirela soltou o ar entre os dentes.

— Lázaro.

Caio virou a cabeça o máximo que a interface permitia. Pelas câmeras, viu a marca do clã pintada nas portas laterais das viaturas. Não vinham discutir o preço. Vinham cortar a oficina do mapa.

O interfone da entrada chiou, então uma voz limpa demais para aquele corredor sujo invadiu o ambiente.

— Oficina Sato, esta área está sob reavaliação de ativos. Desacople o piloto e entregue o frame. O contrato de retenção foi acionado.

Mirela caminhou até a bancada sem tirar o olhar da tela. A faca de plasma no coldre dela já estava na mão.

— Reavaliação de cuíca — murmurou. — Eles sentiram o cheiro do ganho.

Tião cuspiu no chão.

— Sentiram a assinatura anômala. Você sabe disso.

Caio também sabia. O log exposto tinha acendido uma luz no radar dos clãs, e agora o nome dele vinha com preço novo, alto demais para o descarte imediato e sujo demais para passar despercebido. Ameaça Legítima. Era como o mercado gostava de chamar um problema que pode virar lucro.

O líder dos agentes surgiu no corredor estreito quando a porta externa cedeu um palmo sob o corte. Os implantes oculares dele brilhavam azul, frios como vidro molhado.

— Caio Veras — disse ele, sem elevar a voz. — O frame foi mal precificado na triagem. O clã de Lázaro está exercendo o direito de retomada. Desacople o piloto e a oficina sai inteira.

Mirela riu uma vez, sem alegria nenhuma.

— “Inteira” é a palavra favorita de bandido com recibo.

O homem nem piscou.

— Você terá uma chance melhor de manter a estrutura se cooperar.

— E você terá uma chance melhor de continuar respirando se sair daqui agora — respondeu ela.

Os outros agentes se espalharam pelo corredor, armas baixas, disciplina de matilha. Caio sentiu a mudança de peso no frame antes mesmo do primeiro tiro: a blindagem adaptativa tinha estabilizado a lateral esquerda e o joelho respondia mais rápido. O ganho era real. Também era provisório.

Ele apertou o comando e o mecha levantou do suporte com um gemido de metal sob pressão. O piso vibrou. A transmissão de combate da oficina — o feed interno que Mirela usava para monitorar tudo — captou a oscilação e jogou os dados no visor: torque aumentado, consumo térmico acima do previsto, consumo vital em linha ascendente.

— Não deixa eles travarem a porta — disse Caio.

— Eu sei olhar o que está na minha frente — rosnou Mirela, já movendo o painel de energia para isolar o setor principal.

O primeiro disparo atingiu a blindagem do ombro e explodiu em faíscas brancas. Caio recuou um passo e respondeu com o braço reforçado, empurrando a viga lateral e forçando o corredor a estreitar. O impacto não derrubou o agente; derrubou a certeza dele. Um segundo tiro veio de flanco, ricocheteou na placa recém-adaptada e abriu um rasgo incandescente no piso.

Tião, de costas para uma prateleira de peças velhas, atirou uma caixa de componentes no caminho dos invasores.

— Se quiser levar o frame, vai ter que arrumar a bagunça depois!

— Tião! — Mirela gritou.

— O quê? — ele respondeu, já puxando outra peça. — Hoje eu morro produtivo.

Caio avançou. O frame respondeu com precisão nova, mais cruel que conforto. A blindagem se fechava onde a leitura previa impacto; o antebraço pesado absorvia fogo; as juntas obedeciam sem a hesitação de antes. Mas a cada movimento, o painel térmico subia um degrau. 92. 93. 94.

Ele sentiu o gosto de ferro subir na garganta, sinal do esforço neural apertando demais a ponte entre corpo e máquina.

— Caio — disse Mirela, agora sem gritar. Isso foi pior. — Se continuar assim, ele vai queimar o núcleo.

— Se eu parar, eles levam tudo.

— Eu sei.

Essa foi a parte mais dura: ela não discutiu a verdade. Só esperou a decisão.

O agente líder tentou avançar pela lateral, usando o ângulo cego do corredor. Caio girou o torso e a blindagem adaptativa respondeu com um deslocamento brutal, encaixando placa sobre placa como se o frame tivesse encontrado um jeito de contrariar a física por mais alguns segundos. O golpe de contenção explodiu contra o antebraço e abriu uma chuva de fragmentos quentes.

No visor, o sistema registrou um salto curto de desempenho. A manobra do terreno estreito — corredor, porta, bancada, parede — passou de limitação a vantagem. Caio empurrou o invasor contra a estrutura de manutenção, esmagando o espaço que ele precisava para respirar, mirar, negociar.

— Agora — disse Mirela.

Ela cortou a alimentação parcial do lado esquerdo do corredor, mergulhando os agentes em meia-luz. O líder hesitou por um segundo. Foi o bastante. Tião lançou uma grade de transporte que travou no chão e fechou o acesso de dois deles. Um terceiro tentou saltar por cima, mas o ombro do frame de Caio encontrou a linha do peito dele com violência suficiente para apagar qualquer elegância.

Os demais recuaram meio passo.

O painel termal piscou em amarelo escuro: 95.8%.

Caio sentiu a visão afinar mais uma vez. Cada pulsação trazia calor demais. A blindagem adaptativa não estava apenas protegendo; estava comendo a reserva do piloto em troca de um fôlego superior. O preço já tinha rosto.

— Corta — disse Mirela, baixa.

Ele segurou.

O segundo disparo de contenção veio quase ao mesmo tempo. A blindagem absorveu a maior parte, mas o impacto atravessou o casco e bateu direto na coluna de calor. O painel saltou: 96.3%.

O alarme mudou de tom.

Não era mais aviso. Era colapso.

Caio sentiu o frame dobrar por dentro, como se as juntas estivessem tentando soldar uma febre no lugar da estrutura. O núcleo soltou um gemido comprido e feio. No canto inferior do visor, uma linha de erro correu rápido demais para ler inteira, mas ele entendeu o essencial: o sistema havia passado da margem segura.

Mirela bateu no painel com a palma.

— Caio, agora.

Ele podia soltar. Podia cortar a blindagem, deixar a máquina sangrar menos e a si mesmo sobreviver mais um dia. Também podia manter a forma agressiva e varrer os homens de Lázaro da porta, enquanto o frame queimava o próprio coração para sustentar o ganho.

A escolha não era nobre. Era suja, pública e irreversível.

Do lado de fora, um dos veículos blindados do clã de Lázaro abriu os alto-falantes. A voz do comando veio distorcida pela chuva, mas a mensagem não precisava de beleza.

— Último aviso. Entreguem o frame. Se houver resistência, a oficina será tratada como ativo hostil.

Mirela olhou para Caio de um jeito que não era pedido, nem ordem. Era a versão mais seca de confiança.

Tião apertou a chave magnética até os nós dos dedos embranquecerem.

O cronômetro de resfriamento caiu para 00:41.

Caio fechou a mão no comando de combate e sentiu a máquina subir com ele, fervendo. Se mantivesse o sistema ativo, a vitória tinha chance. Se cortasse, perderia o chão e talvez a oficina junto.

O primeiro anel de proteção do núcleo começou a chiar.

E, pela vibração das placas externas, ficou claro que o cerco de Lázaro já tinha começado de verdade — e que a oficina de Mirela era o primeiro alvo.

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