A Prova do Segundo Andar
O brilho azulado do terminal de Mirela cortava a penumbra da oficina como um bisturi, revelando a notificação que Caio acabara de receber: um contrato de sabotagem com o selo do Clã de Lázaro. O objetivo era claro: uma falha catastrófica no motor durante a ascensão ao segundo andar.
— Alguém aqui dentro está vendendo nossa telemetria — a voz de Caio era um rosnado, o cheiro de óleo queimado impregnado em sua pele. — Se o motor falhar lá em cima, minha licença será revogada por 'incompetência técnica'. É o fim da linha.
Mirela não pareceu surpresa. Ela empunhou uma chave de torque, os olhos fixos nos logs de diagnóstico. — Eu sabia que o fluxo de energia estava irregular, Caio. Não era erro de calibração. — Ela apontou para o núcleo do motor, onde um componente cinzento, estranho à estrutura original, pulsava com uma voltagem forçada. — Um limitador de carga. Instalado de dentro para fora. O traidor conhece cada milímetro da nossa arquitetura.
O olhar de Mirela desviou-se para o assistente da oficina, um jovem que parou de respirar sob a pressão. Caio avançou, ignorando a pontada aguda que a blindagem adaptativa irradiava em seu sistema nervoso. Ele não tinha tempo para justiça, apenas para a remoção do parasita. Ao arrancar o componente, o frame soltou um chiado metálico de descompressão, tornando-se instável, mas livre das amarras programadas.
Horas depois, no Posto de Controle do Segundo Andar, o ar tinha um gosto metálico de ozônio. Caio estacionou seu frame, sentindo o calor residual vibrar contra sua espinha — a blindagem adaptativa não era apenas uma vantagem, era um parasita que devorava sua energia vital. O Inspetor Imanishi bloqueava a rampa, seus olhos escaneando o chassi em busca de qualquer irregularidade para confiscar o espólio.
— Veras — o inspetor rosnou, o desdém pingando de cada sílaba. — Seu registro está marcado para observação especial. A Torre não permite frames instáveis.
Caio sentiu a pressão do contrato de sabotagem. Enquanto o inspetor aproximava o scanner, Caio ativou o log de combate proibido. O sistema neural queimou. Ele forçou o módulo a processar um ruído estático, uma sobrecarga de dados de batalha que mascarou a assinatura energética do protótipo como um erro de sistema comum. O inspetor, frustrado, liberou a entrada, mas marcou o frame para uma observação que Caio sabia ser uma sentença de morte se ele falhasse.
Ao entrar na arena, o placar acima dele não exibia nomes, mas valores de mercado. Dois outros pilotos, descartáveis como ele, o aguardavam. O primeiro, com um frame remendado, cuspiu no canal aberto: — Eu não sigo ordem de quem ainda está sendo testado.
— Então morram sozinhos — Caio respondeu.
A arena se transformou. O piso cedeu, revelando plataformas móveis suspensas por pistões expostos. A leitura de estabilidade de Caio caiu de 71% para 54% em segundos. Quando um dos pilotos foi encurralado por uma plataforma que desabava, Caio não hesitou. Ele forçou a blindagem adaptativa a se reconfigurar, transformando as placas de proteção em propulsores laterais, uma manobra não documentada que o impulsionou sobre o vazio, alcançando o companheiro por um fio. O custo foi imediato: uma sobrecarga neural que fez sua visão escurecer.
Ele venceu a prova, mas o frame entrou em modo de emergência, revelando o segredo do log para os sensores da Torre. Enquanto o segundo andar se fechava, Caio percebeu que o terreno instável fora apenas o início. A manobra que salvara sua equipe exigia um controle de blindagem que seu frame ainda não dominava. E, observando das arquibancadas de elite, Nara Imanishi não parecia disposta a deixar o mistério de sua ascensão passar em branco.