Vitória na Arena de Pregão
O relógio de reassiginação marcava 04:17. O tempo não era apenas um número; era o peso do confisco iminente pressionando as costelas de Caio. Na Arena de Provas, o ar tinha cheiro de ozônio e desespero. Se o frame falhasse, a Torre não veria um erro técnico; veria uma fraude, e o confisco seria imediato.
No centro da arena, o oponente era um Centurião da linhagem Imanishi. Pintura imaculada, placas sem um arranhão, a postura de quem nunca precisou contar moedas para consertar um pistão. O piloto, dentro da cabine aberta, sorriu para as câmeras de transmissão. Classe de elite. Ranking que definia o preço da vida antes mesmo da luta começar.
— Caio Veras — a voz do piloto ecoou pelo canal aberto, polida, desdenhosa. — Mandaram o frame errado para a exibição ou a sucata aprendeu a andar sozinha?
A plateia, composta por compradores sectários e representantes de clãs, riu. Era um som seco, socialmente calculado para isolar o alvo.
— Não reage — a voz de Mirela surgiu no canal privado, tensa. — O núcleo está instável. Se ele te puxar para o jogo de ego, você sangra sistema e reputação ao mesmo tempo.
Caio não respondeu. Ele sentiu o frame vibrar sob suas mãos. O log proibido, fundido ao seu sistema neural, enviou um pulso de energia que parecia agulhas percorrendo sua coluna. A blindagem adaptativa acordou, linhas finas de metal reconfigurando-se como veias sob o casco.
O alarme de início soou.
O Centurião avançou com uma precisão humilhante. O primeiro golpe, um pulso cinético no ombro, foi calculado para desequilibrar. Caio sentiu o impacto atravessar a estrutura; a dor foi imediata, uma descarga elétrica que o fez morder a língua até sentir o gosto de sangue. O painel do visor piscou: CUSTO VITAL: ELEVADO.
— Aguenta — ele murmurou.
O oponente tentou o segundo golpe, mirando a junta do ombro, o ponto fraco óbvio de um frame de descarte. Mas, desta vez, a blindagem não cedeu. As placas ondularam, absorvendo a energia cinética e reconfigurando-se em uma geometria mais espessa e agressiva. O golpe escorreu pelo casco em um ruído abafado.
ABSORÇÃO: 41% | RECONFIGURAÇÃO: ATIVA
O silêncio na arena foi absoluto. Caio aproveitou a brecha. Ele não usou técnica de manual; ele usou a força bruta do frame adaptativo. Com um giro curto, ele avançou e desferiu um soco que não buscava elegância, mas a destruição da articulação do Centurião. O impacto foi seco. O mecha de elite cambaleou.
— Você está drenando rápido demais — Mirela avisou, a voz trêmula. — Se não terminar agora, o núcleo vai colapsar.
Caio ignorou a vertigem. Ele fechou a distância, entrando no ponto cego do oponente. O Centurião tentou disparar, mas Caio, guiado pelo log proibido, antecipou o movimento. Ele girou o torso, deixou o disparo raspar a blindagem nova e cravou o punho do seu frame na base da articulação do peito do rival. O metal cedeu com um estalo de energia. O Centurião caiu de joelhos, a cabeça batendo no piso com um estrondo que calou as galerias.
O telão principal atualizou em tempo real:
CAIO VERAS | STATUS: RETENÇÃO TÉCNICA | AVALIAÇÃO: AMEAÇA LEGÍTIMA
O mercado sectário, que antes ignorava sua existência, agora o observava com medo. Caio saiu do frame, o corpo latejando, e encontrou Nara Imanishi no pátio. Ela não sorria. Seus olhos mediam cada centímetro da anomalia que ele representava.
— Eu conheço essa assinatura — disse ela, baixa. — O que a Torre mede, a Torre corrige. Você é uma anomalia que meu clã deveria ter apagado.
— Então seu clã falhou — Caio rebateu.
Nara não respondeu, mas o telão atrás dela brilhou com uma nova notificação: ACESSO DESBLOQUEADO: SEGUNDO ANDAR — PROVA DE LIGAÇÃO. O acesso estava condicionado a uma inspeção técnica que ele sabia ser uma armadilha.
O celular de Caio vibrou. Uma mensagem criptografada, sem remetente, exibia um contrato de sabotagem contra sua própria oficina. O nome do contratante estava oculto, mas a assinatura de acesso era inconfundível. Alguém na oficina estava vendendo sua cabeça.
Caio olhou para Mirela, depois para o placar. Ele não era mais sucata. Ele era um alvo, e a Torre acabara de abrir a porta para o próximo nível da sua destruição.