O Custo da Eficiência Oculta
O relógio de reassiginação marcava 04:17. Na tela do galpão, o frame de Caio Veras não era mais classificado como sucata; era um erro de sistema. O valor de mercado, antes estagnado no zero, agora oscilava como um batimento cardíaco irregular sob o escrutínio dos avaliadores do clã.
A chuva ácida fustigava o teto de zinco, um som metálico que se misturava ao zumbido do núcleo do mecha. Mirela Sato estava sob a carcaça, os dedos ágeis contornando a fiação exposta. Ela não trabalhava com a cautela de quem conserta, mas com a urgência de quem desarma uma bomba.
— Não olhe para o visor — ordenou ela, a voz cortando o chiado da oficina. — O sistema neural está sobrecarregado. Se você tentar processar a telemetria agora, seu cérebro vai fritar antes da blindagem.
Caio sentiu a agulha quente do log proibido perfurando sua interface neural. O frame não apenas ligara; ele estava aprendendo. A cada pulso, a estrutura de metal se reajustava, as placas de blindagem deslizando com uma precisão que não pertencia àquele modelo obsoleto. Era uma performance de elite, mas o custo era visível: a energia que deveria alimentar os atuadores estava sendo drenada para manter a integridade daquela nova forma.
— Quanto tempo até o clã chegar? — Caio perguntou, a mandíbula travada.
— O suficiente para você entender que isso não é um milagre, é uma sentença — Mirela puxou um cabo de leitura. O holograma projetado entre eles revelou uma assinatura de projeto proibida. — Protótipo de resposta adaptativa. Quem instalou isso no seu núcleo não queria que ele fosse vendido. Queriam que ele fosse uma arma descartável.
— E agora? — Caio observou o casco cinza. Uma fileira de microcanais se abriu na lateral do torso, fechando-se com um estalo seco, mais justo, mais letal. O mecha estava se tornando algo que ele mal reconhecia.
— Agora, você é um alvo — Mirela limpou a graxa das mãos. — O módulo consome sua blindagem como combustível. Quanto mais rápido você se move, mais vulnerável você fica. É uma corrida contra a própria estrutura.
Lá fora, o alto-falante da feira chiou. A voz do fiscal, antes monótona, agora carregava uma tensão burocrática perigosa:
— Requisição de rechecagem no pátio leste. Assinatura anômala confirmada. Operador, apresente-se para inspeção imediata.
Caio sentiu o peso do olhar da cidade. O placar da Torre, refletido na chapa empenada do galpão, atualizou-se: RETENÇÃO PROVISÓRIA / REANÁLISE TÉCNICA. O valor subia, mas o risco subia na mesma proporção.
— Eles não vão te deixar sair com isso — Mirela avisou, os olhos fixos no monitor. — Se você sair, vai ter que provar que essa máquina vale mais do que o custo do seu desmonte. Eles vão tentar te destruir com formulários e leis de clã. É pior que combate direto.
Caio fechou a mão sobre o comando. O mecha vibrou, uma resposta quase orgânica ao seu toque. A blindagem se reconfigurou novamente, um estalo seco que ecoou pelo galpão. A assinatura de energia, antes um ruído de fundo, disparou. Os drones do clã Imanishi, pairando sobre o pátio, giraram suas lentes em direção ao galpão.
— Eles rastrearam o sinal — Mirela sussurrou.
— Que agora é meu nome — Caio respondeu.
Ele não era mais o fracassado da dívida. Ele era a anomalia que o sistema precisava corrigir. E, enquanto o ranking de Caio subia no placar da Torre, a elite começou a olhar. Não com desprezo, mas com a fome de quem identifica uma ameaça legítima. A ascensão tinha começado, e o preço era a própria sobrevivência.