Sombra no Ranking
O suor que escorria pelo pescoço de Kaelen não era apenas pelo calor do Vulture-7; era o gosto metálico da vigilância. Ao cruzar o corredor da Academia, o ar condicionado estéril parecia carregar o peso de mil olhares. Os cadetes de elite não o viam como um colega, mas como uma falha de sistema que a Diretora Viana exigia purgar.
— O sucateiro que deu sorte — uma voz cortou o silêncio. Era um cadete de Rank Ouro, bloqueando o caminho. O distintivo em seu peito brilhava com a arrogância de quem nunca soube o que era uma dívida de chassi. — Viana está caçando cada watt de energia que você drenou no primeiro andar. Seu frame antigo consumiu o equivalente a um setor inteiro. É uma anomalia, Kaelen. E anomalias são deletadas.
Kaelen não parou. O módulo militar, escondido sob a carcaça do Vulture-7, latejava como uma ferida aberta. Se ele parasse para responder, os sensores de rede da Academia teriam o tempo necessário para uma varredura de assinatura completa. Ele empurrou o ombro do cadete, forçando a passagem com uma frieza que o outro não esperava.
— Sorte não consta no registro da Torre — Kaelen disparou, sem olhar para trás. — Mas a sua incompetência em me parar no primeiro andar, sim.
Ao entrar no Hangar 4, o cronômetro de reatribuição — 13 horas e 42 minutos — pulsava em âmbar. Sua estação de trabalho fora revirada. Cabos de uplink estavam cortados e componentes de diagnóstico jaziam espalhados como lixo. Ele deslizou para a cabine, ignorando o tremor em suas mãos.
O sistema do Vulture-7 disparou alertas em vermelho escarlate. Firmware corrompido. Alguém tentara injetar um loop de sobrecarga, a assinatura clássica de sabotagem da Academia para forçar a autodestruição de frames "defeituosos".
— Tão previsíveis — sibilou Kaelen, seus dedos voando pelo painel para isolar os setores infectados.
— Eles não estão apenas tentando te parar, Kaelen. Estão apagando evidências — a voz de Renata soou das sombras. Ela se aproximou, os olhos varrendo o hangar com uma cautela que beirava o pânico. — Viana autorizou uma auditoria total. Se encontrarem o código que você usou para desbloquear o Vulture, você será banido da Torre antes do amanhecer.
Kaelen não parou de digitar, expurgando o código malicioso. — E você? Se for pega aqui, sua bolsa de estudos desaparece junto com meu frame.
Renata não respondeu. Ela deslizou um pequeno cilindro metálico sobre a graxa da bancada. Um processador de fluxo de classe militar. — É a última peça. O registro de batalha que você encontrou... aquilo é uma chave-mestra. Se integrar isso, os limitadores da Academia serão sobrescritos. Mas a segurança já está rastreando sua assinatura de energia. Eles sabem que algo mudou.
Kaelen pegou o componente. Ao encaixá-lo, um pulso de energia azulada percorreu o chassi, fazendo as luzes do hangar oscilarem. Foi um pico violento. O sistema de segurança da Academia emitiu um alerta de proximidade imediato.
— Eles viram — Renata sussurrou, a voz embargada. — Os sensores convergiram.
O chão tremeu. O 3º andar, antes inacessível, brilhou na interface da Torre. As paredes do hangar começaram a se fechar em uma armadilha mecânica, e o status de Kaelen foi marcado como 'Anomalia Crítica'. Ele estava preso, mas o Vulture-7, agora operando com o potencial que a Academia tentara enterrar, rugiu em resposta. A subida não era mais um teste; era uma guerra.