O Primeiro Andar não Perdoa
O ar no pórtico de entrada do 1º andar tinha o gosto metálico de ozônio e desespero. Kaelen sentiu o Vulture-7 vibrar sob seus comandos, um tremor que não vinha apenas da instabilidade do chassi, mas da assinatura de energia Classe A que ele lutava para manter mascarada sob a carapaça de sucata. Seus olhos varreram o painel: 14 horas e 12 minutos para a reatribuição forçada. A Academia não estava apenas vigiando; eles estavam caçando a anomalia que ele representava.
Renata aproximou-se, o rosto pálido sob a luz fria dos hologramas que flutuavam acima da arena. Ela não o encarou, mantendo a postura de quem não queria ser vista como cúmplice de um fracasso.
— O código de mascaramento está ativo — sussurrou ela, a voz mal audível sobre o zumbido dos cabos de força. — Mas não se iluda, Kaelen. A Diretora Viana aumentou a sensibilidade dos sensores. Se o Vulture-7 emitir um único pico de energia acima do padrão permitido, a Torre vai trancar seu acesso. Você tem dez minutos para limpar o andar. Se falhar, você não é apenas rebaixado; você é apagado.
As portas de metal se fecharam com um estrondo hidráulico, isolando-o. O cronômetro começou a contagem regressiva em vermelho intenso sobre o visor.
O calor dentro da cabine tornou-se opressor. À frente, três Sentinelas de Aço — modelos de patrulha da Academia, pesados e implacáveis — avançavam em sincronia, seus canhões de íons zumbindo. Kaelen acessou o registro de batalha oculto que desbloqueara. O fluxo de dados era uma revelação: os Sentinelas não eram autômatos perfeitos; eles seguiam um algoritmo arcaico que a Academia considerava obsoleto.
O primeiro Sentinela disparou. Kaelen não bloqueou; ele inclinou o Vulture-7, usando o impulso cinético do protótipo para deslizar lateralmente. O canhão de íons queimou o ar onde ele estivera um milissegundo antes. Com uma agilidade que desafiava a aparência de sucata do frame, Kaelen avançou, cravando a lâmina de vibração no servomotor exposto do inimigo. O Sentinela caiu em um estrondo de engrenagens moídas. Ele repetiu o processo com os outros dois, movendo-se como um predador em um ambiente que acreditava que ele era a presa. O sistema da Torre registrou a limpeza do andar em tempo recorde.
O silêncio que se seguiu na plataforma de extração era antinatural. Kaelen olhou para o monitor lateral. O cronômetro de reatribuição ainda marcava 14 horas, mas o abismo que ele acabara de criar entre sua performance e a expectativa da Academia era inegável.
— Você viu isso? — a voz de Renata soou no canal privado, um sussurro tenso. — O registro de batalha não apenas limpou a área. Ele reescreveu o protocolo. Viana já deve estar rastreando a assinatura de energia.
Kaelen sentiu o Vulture-7 tremer. O resfriamento forçado estava falhando. Nos telões da Academia, a imagem da sua vitória era reproduzida, e o ranking oficial começou a piscar, movendo seu nome para o topo da lista de observação da Diretora Viana. Ele não era mais um sucateiro invisível; ele era um alvo.
Na zona de transição, Renata o aguardava com um módulo de processamento de classe militar. Ela o lançou contra a escotilha, o rosto marcado pela exaustão e pelo medo.
— Isso é um processador de fluxo para o sistema de mira — ela sussurrou, olhando freneticamente para trás. — Eu o roubei do laboratório de calibração. Eles já sabem que alguém acessou o sistema, Kaelen. Se eles descobrirem que fui eu, não haverá Torre que nos proteja. Estou sendo vigiada, sinto os olhos deles em cada corredor.
Kaelen encaixou a peça, sentindo a nova integração de hardware estabilizar o Vulture-7, mas o custo era claro: o jogo de espionagem havia começado, e a Torre, agora, era o tabuleiro onde a própria Academia movia as peças contra ele. O 2º andar abriu-se, com uma dificuldade triplicada, e ele avançou, sabendo que a dívida de sua família era apenas o prelúdio de uma conspiração maior.