Ajuste de Risco
O cheiro de ozônio e metal queimado na Baia 42 era o perfume da ruína. Kaelen estava submerso sob o Vulture-7, as mãos calejadas operando o núcleo de dados com a precisão de um cirurgião em uma zona de guerra. O protocolo de otimização, injetado minutos antes, não era apenas um código; era um parasita digital devorando as travas de segurança da Academia. A arquitetura oculta do frame — um protótipo de elite, não a sucata que todos acreditavam — começou a pulsar.
— Vamos, seu miserável — sibilou Kaelen.
O motor soltou um chiado gutural. Servomotores, antes travados por firmware, destravavam com estalos metálicos. Ele estava desbloqueando um potencial que, se descoberto, o levaria direto para a reeducação da Diretora Viana.
De repente, o sistema de monitoramento da Academia disparou um guincho agudo. Um alerta vermelho pulsou na interface de seu braço esquerdo. A assinatura do Vulture-7, antes um padrão de sucata, agora irradiava uma frequência de combate proibida.
— Kaelen, o que você fez? — A voz do oficial de segurança, um homem com o brasão da Academia gravado no peito, cortou o silêncio. Ele avançava, a mão no coldre. — O sistema central registrou um pico de energia de classe A. Abra o acesso total ao firmware agora.
Kaelen sentiu o suor frio. O protocolo ainda consolidava os dados. Uma inspeção manual revelaria a modificação em segundos. Ele precisava de tempo. Caminhou até o painel secundário, fingindo desespero, e puxou um cabo de força com força bruta. Faíscas cegaram o oficial momentaneamente.
— O circuito de refrigeração colapsou! — Kaelen gritou. — Se eu não tivesse cortado a carga, teríamos um incêndio químico. Veja a fumaça!
O oficial recuou, tossindo. Ele lançou um olhar de desprezo para o chassi.
— Você tem seis horas até o teste público, Kaelen. Se essa carcaça falhar, sua dívida será cobrada em carne e osso.
Assim que o oficial saiu, Renata surgiu da galeria superior, o rosto pálido.
— Eles vão apagar sua licença se detectarem esse pico — ela sussurrou, enviando um código de resfriamento pelo canal privado. — Use isso. Mas vai fritar seus circuitos internos.
Kaelen aceitou o código. O Vulture-7 vibrou sob sua pele sintética, respondendo a comandos antes mesmo que ele os pensasse. A dor disparou em seu sistema nervoso, um feedback tátil insuportável. O cronômetro da dívida piscava impiedoso: 14 horas e 42 minutos.
Ele forçou a assinatura proibida para dentro de um loop de diagnóstico fantasma. O ranking oficial da Academia começou a atualizar em tempo real, jogando o nome de Kaelen para o topo da lista de observação da Diretora Viana. O sistema de sensores apitou violentamente. Ele estava no limite, perigosamente exposto, com a torre de observação da Diretora focada diretamente em sua baia.