O Eco da Traição
O metal da porta da oficina gemeu sob o impacto do aríete hidráulico. Kaelen sentiu a vibração nos dentes enquanto as luzes de emergência, em um tom carmesim doentio, oscilavam e morriam. No visor de seu pulso, a contagem regressiva para o despejo marcava vinte e duas horas. Era o tempo que lhe restava antes que a Torre o apagasse do registro de pilotos.
— Eles estão cortando o núcleo de energia, Kaelen! — Mira gritou, as mãos trêmulas tateando o painel de comando inoperante. — Se a trava magnética falhar, a oficina será despressurizada. Foi assim que fizeram com o meu grupo. Eles não deixam sobreviventes.
Kaelen não respondeu. Seus olhos estavam fixos no chassi reserva, o único trunfo que ele possuía contra a hegemonia de Valerius. Ele canalizou o éter residual, forçando uma sobrecarga nos capacitores da máquina. Um pulso eletromagnético varreu a sala, silenciando os drones no corredor com um estalo seco. O cheiro de ozônio e metal queimado tornou-se sufocante.
— Eles não vieram para prender, Mira. Vieram apagar o que vocês descobriram — Kaelen disse, puxando-a para o terminal do servidor.
Os dedos de Kaelen voaram sobre o painel holográfico, conectando o drive de decodificação. A tela exibiu logs de erro em cascata, revelando que o protocolo de eliminação da Equipe Sete fora autorizado manualmente. Mira paralisou ao ver a assinatura digital na chave de acesso. Era seu antigo mentor. O "acidente" fora uma execução, uma manobra para ocultar um erro de design fatal que ameaçava a reputação da Torre.
— A vingança não é o fim, é a arma — Kaelen sibilou, a voz cortante. — Se a Torre quer esconder a falha, vamos usar a própria estrutura para expô-la.
Um subordinado de Valerius forçou a entrada, a mão no coldre, escaneando o erro de sistema forjado. Kaelen surgiu das sombras, a lâmina de energia a milímetros da garganta do homem. O capanga empalideceu ao reconhecer a marca de "Anomalia" no traje de Kaelen.
— Valerius… ele ordenou a purga! — o homem gaguejou. — Ninguém pode saber sobre o artefato do 12º andar.
Kaelen gravou a confissão, mas o silêncio foi estilhaçado por sirenes. O protocolo de segurança da Torre fora ativado. Ele nocauteou o subordinado e voltou-se para Mira, que decodificava o último pacote de dados com uma expressão de horror absoluto.
— Kaelen, não é apenas uma otimização — ela sussurrou, a voz firme pelo choque. — O código… ele mapeia as rotas de ventilação e os nós de segurança da base de dados central. Eles não nos caçam por um erro de design. Eles nos caçam porque temos o mapa da fundação da Torre.
Um estrondo ensurdecedor ecoou na entrada. As dobradiças cederam. O Moedor, o sistema de triagem de elite, abriu-se no centro da oficina, projetando três oponentes blindados no corredor. Kaelen sentiu a adrenalina queimar. Ele não era mais apenas uma anomalia; era uma ameaça existencial. Ele ajustou o modulador de fluxo, sabendo que, se vencesse, o próximo nível da Torre não seria apenas um andar, mas uma guerra aberta. O primeiro passo da revolução começava ali, sob o fogo dos Cães de Valerius.