Prova de Fogo no Andar Inferior
O Auditor Vane não esperou convite. Ele invadiu a oficina com a autoridade de quem decide quem respira o ar da Torre. Seu monóculo de análise varria os componentes com uma fome burocrática, focando no chassi reserva que ainda irradiava o calor do código proibido.
— Acesso imediato, Kaelen. Não me force a repetir — Vane rosnou, batendo o punho metálico na bancada. O impacto fez as engrenagens de precisão saltarem, um som de agonia metálica que ecoou no silêncio tenso.
Kaelen bloqueou a entrada do painel central com o corpo, sentindo o zumbido de baixa frequência do módulo da Equipe Sete pulsar contra suas costas. Se Vane conectasse o scanner, a assinatura energética seria sua sentença de morte.
— Se eu abrir o núcleo agora, o feedback reverso desintegra os registros de propriedade da sua Torre — Kaelen sibilou, a voz firme. — Quer os dados ou quer destruir o ativo?
Vane sorriu, um gesto frio. Ele deslizou um selo de lacre oficial pelo balcão. — A oficina está embargada. Se quer mantê-la, prove sua utilidade na arena. Teste de inaptidão, agora. Vinte e duas horas para o despejo, Kaelen. Não desperdice o tempo que lhe resta.
Na arena, o som das vaias da elite ecoava como granizo contra o metal do chassi reserva. Valerius observava do camarote, seus olhos digitais registrando cada imperfeição. À frente, um Guardian-V, monóculo de polímero negro e pistões de última geração, deslizou para o centro.
— Lixo descartável — a voz do piloto do Guardian inundou a arena.
Kaelen acessou o painel interno. Ignorando os avisos de superaquecimento, ele forçou o módulo da Equipe Sete a ignorar os limitadores. O sistema gritou em erro, mas a energia fluiu, bruta. Quando o Guardian-V investiu com um soco capaz de esmagar concreto, Kaelen não bloqueou. Ele executou um desvio milimétrico, deixando o punho passar a centímetros de seu núcleo.
O público silenciou. O zumbido do Guardian-V tornou-se um guincho agudo quando Kaelen contra-atacou, seus servos operando em frequências proibidas. Ele girou dentro do raio de alcance do oponente, cravando uma lâmina de sucata reforçada na junção hidráulica do ombro inimigo. Faíscas purpurinas explodiram, banhando a arena em uma luz estroboscópica.
O Guardian-V, orgulho dos patrocinadores de Valerius, desabou com o chassi rasgado. Valerius apertava o corrimão com tanta força que seus nós dos dedos embranqueceram. Ele não podia ordenar a execução de Kaelen ali, sob os olhos de milhares de espectadores que agora murmuravam, suas apostas viradas de cabeça para baixo.
— O piloto Kaelen, do setor de manutenção, demonstrou uma performance atípica — a voz de Valerius ecoou, fria, tentando recuperar o controle. — Devido à natureza singular de sua otimização, ele não pode mais ser classificado sob os parâmetros convencionais. A partir de agora, Kaelen será designado como Anomalia de Categoria 1.
Um brilho azul neon surgiu sobre o frame de Kaelen, projetado pelos painéis da Torre. Não era uma medalha. Era um alvo. Kaelen olhou para cima, para o próximo andar, sentindo o peso da nova marca. Ele havia vencido a arena, mas agora, caçadores de recompensas de toda a Torre tinham permissão legal para caçá-lo. O jogo havia mudado, e o teto subira mais rápido do que ele poderia suportar.