Otimização sob Pressão
O ar na oficina de Mira era espesso, saturado com o cheiro acre de ozônio e o gosto metálico de ferrugem. Kaelen jogou o módulo de dados sobre a bancada, o impacto fazendo o conjunto de chaves inglesas tilintar como um aviso. No pulso, o cronômetro projetado em sua pele exibia a contagem regressiva: 23 horas e 14 minutos até o despejo definitivo.
— O mercado fecha em dez minutos, Mira. Se esse patch não estiver rodando no chassi, estou morto — a voz de Kaelen estava rouca, o suor escorrendo pelas têmporas enquanto ele observava a carcaça do Mark-III. Era um chassi reserva, uma peça que deveria ter sido enviada para o fundidor, agora sua única esperança.
Mira parou a solda, o brilho azulado do maçarico morrendo enquanto ela identificava a assinatura digital no módulo. Ela recuou, deixando a ferramenta cair com um baque surdo.
— Equipe Sete — ela sussurrou, a voz trêmula. — Kaelen, você tem noção do que está me pedindo? Isso não é um upgrade. É uma condenação. Eles tentaram implementar isso e foram silenciados pela administração antes do amanhecer.
— Eles estão mortos, Mira. Mas o código continua aqui, latente. Você vai deixar o legado deles apodrecer na sucata, ou vai me deixar subir? — Kaelen avançou, a urgência em seus olhos forçando Mira a encarar a realidade. Ela não estava apenas ajudando um sobrinho desesperado; ela estava vingando os fantasmas que assombravam cada canto daquela oficina.
Com um suspiro trêmulo, ela assumiu o controle. Ao encaixar o conector, o chassi começou a vibrar com uma frequência impossível. Um zumbido grave, quase gutural, ressoou nas paredes de metal. O patch de otimização, uma relíquia da era pré-colapso, começou a reescrever os protocolos de segurança do frame em tempo real. As luzes da oficina oscilaram violentamente, drenando a energia da rede local para alimentar o processamento. A penumbra tomou o recinto, deixando-os quase cegos, exceto pelo brilho violeta que pulsava nos circuitos expostos.
— O consumo é insustentável — Mira avisou, os dedos voando pelo painel de controle. — Se continuarmos, vamos causar um apagão no setor inteiro. Kaelen, precisamos de mais energia ou o patch vai fritar os processadores.
Kaelen não hesitou. Ele desconectou os estabilizadores da oficina, desviando a energia vital para o chassi. O local mergulhou na escuridão total, restando apenas o brilho azulado, quase febril, do frame. O zumbido estabilizou em uma harmonia perfeita. O Mark-III não era mais uma sucata; ele estava vivo.
Foi então que a batida na porta de metal ecoou, pesada e autoritária. Não era um pedido; era uma sentença.
— Auditoria de emergência! — A voz de Vane, o cão de caça de Valerius, cortou o silêncio. — Temos um pico de energia anômalo detectado na rede. Abra, Kaelen, ou arrombamos.
Mira, agachada sob o console, travou o hálito. Kaelen bloqueou a visão da bancada com o próprio corpo, sua mente correndo. Se Vane visse o brilho daquele código, a execução seria imediata.
— Curto-circuito, Auditor! — Kaelen gritou, a voz firme enquanto tentava ganhar segundos. — A fiação deste nível é lixo, você sabe disso. Se tocar na trava agora, o sistema entra em colapso e perde todo o histórico de dívidas.
— Não me venha com desculpas de sucateiro — Vane zombou, os passos pesados aproximando-se da porta. — Seu histórico é um desastre, Kaelen. Mas essa assinatura energética... ela pulsa como um coração novo. Saia da frente.
O som da trava metálica sendo forçada pela hidráulica do Auditor começou a gemer. Kaelen olhou para o chassi. A barra de progresso no terminal de Mira marcava noventa e nove por cento. Ele precisava de apenas um segundo a mais.
Sem pensar, Kaelen mergulhou o cabo neural na nuca do frame. A dor do choque térmico foi instantânea, mas, ao se fundir à máquina, o mundo ao seu redor desacelerou. Ele sentiu cada engrenagem, cada fluxo de energia proibida. A porta cedeu com um estrondo. Vane entrou, a mão já no coldre, mas parou no meio do caminho, os olhos arregalados.
O frame de Kaelen, antes imóvel, tornou-se um borrão de cromo. Ele surgiu diante do Auditor, a palma da mão metálica a milímetros da garganta do homem. O zumbido elétrico do frame vibrava no ar, uma promessa de poder que Vane nunca tinha visto em modelos de mercado. O Auditor recuou, aterrorizado, enquanto o brilho azulado do chassi iluminava o rosto pálido de Kaelen. O jogo havia mudado, e ele sabia: a partir daquele momento, ele não era apenas um devedor, mas o alvo principal de Valerius.