Sucata de Luxo, Vida de Cobre
O rugido do motor de combustão interna do Frame Mark-III de Kaelen ecoava pela Arena de Triagem, abafado pelos assobios cruéis da elite nas arquibancadas. O chassi, uma relíquia de metal oxidado e soldas remendadas, tremia sob a tensão das manobras de alta velocidade.
— Vamos, sua lata-velha, não me deixe na mão agora! — Kaelen rugiu, forçando a alavanca de ignição. O painel de controle piscou em um vermelho alarmante.
À frente, o cursor de mira travou no alvo móvel do teste de eficiência. Kaelen sentiu a resposta hidráulica falhar por uma fração de segundo; uma latência que não deveria existir. Ele compensou girando o giroscópio manualmente, o suor ardendo em seus olhos. Nas arquibancadas, Valerius observava com um sorriso gélido, o dedo flutuando sobre o console de controle remoto. Com um toque sutil, ele sobrecarregou a pressão do joelho esquerdo do Frame. O metal gemeu, estalando sob a carga. O desastre era iminente, e o sistema de avaliação já emitia alertas de erro crítico. Kaelen sentiu o tranco violento quando o atuador travou, forçando o chassi a um ângulo antinatural. O público rugiu em desdém enquanto a unidade, declarada 'sucata', era arrastada para fora da arena pelos guindastes de descarte.
Kaelen não esperou. Enquanto os auditores se distraíam com a humilhação do piloto, ele invadiu o núcleo do Mech, extraindo um módulo de dados proibido antes que o chassi fosse compactado. Ele correu para a oficina de sua tia Mira, o coração martelando contra as costelas.
— Você está louco, Kaelen? — Mira cortou o silêncio da oficina, as mãos manchadas de grafite parando sobre a bancada. — Se a administração rastrear essa assinatura, não seremos apenas despejados. Seremos apagados.
Kaelen não respondeu. Seus dedos dançavam sobre o console, integrando o log proibido. O código era elegante, quase alienígena, uma otimização de fluxo que forçava os motores a ignorar os limitadores de segurança da Torre. Ao injetar os dados, o chassi reserva estremeceu. O som do motor mudou de um ronco irregular para um zumbido grave e constante, uma pulsação que parecia vibrar no piso de concreto.
— Eu não tenho mais nada, Mira — ele disse, a voz endurecida pela necessidade. — Se não subir, eu morro aqui embaixo.
O aviso de despejo brilhava em um vermelho agressivo no canto do visor, um lembrete cruel: 24 horas restantes para realocação ou o chassi seria confiscado. O sistema da Torre não apenas cobrava aluguel; ele precificava a existência.
Enquanto o patch de otimização terminava de carregar, o ar na oficina tornou-se pesado. O zumbido do motor atingiu um tom harmonioso e perigoso, uma assinatura energética que rompia com tudo o que o mercado permitia. Foi então que o som metálico ecoou na porta da oficina: três batidas secas, autoritárias. O auditor de Valerius havia chegado para recolher o que restava do desastre.