O Teto de Vidro
O ar na Arena 04 tinha gosto de cobre e ozônio. Kaelen Viana sentia o feedback do overclock como agulhas de fogo subindo por sua espinha, um lembrete constante de que seu frame — uma carcaça de sucata remendada — estava operando além de qualquer especificação de fábrica. O público rugia acima, um som abafado pelo zumbido estático das colunas neurais. Ele acabara de derrubar um Vanguard-4, mas a vitória não trouxe alívio. Trouxe o sistema.
— Kael, saia daí! — a voz de Soraia estalou no comunicador, seca e urgente. — O log de dados do seu módulo proibido está sendo drenado. Se o sistema isolar a assinatura energética daquele andar inexistente, eles não vão apenas te desclassificar. Eles vão te apagar.
Kaelen viu os drones de coleta da Arena descendo como vespas metálicas. Seus feixes de escaneamento, um vermelho clínico e implacável, varreram o peito do seu frame, onde o módulo pulsava com uma cadência errática, quase orgânica. O painel de status piscou em âmbar: Dívida em Recálculo: Ameaça em Observação. A Torre não estava apenas cobrando créditos; ela estava tentando purgar uma anomalia.
Ele não esperou. Desviou o pouco de energia que restava para os dissipadores de calor, forçando uma sobrecarga intencional. Um pulso eletromagnético varreu a arena, cegando os sensores dos drones por milissegundos. Kaelen engatou a marcha de emergência e disparou para os túneis de serviço, ignorando os avisos de integridade estrutural que gritavam em seu visor.
O escritório de Valerius era um santuário de mármore e silêncio, um contraste insultante com o caos da arena. Kaelen não pediu permissão; ele forçou a entrada, o frame ainda fumegando. Valerius estava de costas, observando a Torre através do vidro temperado. Quando se virou, não havia o desdém habitual. Seus olhos rastrearam o movimento de Kaelen — a fluidez antinatural que o módulo conferia ao metal velho.
— Você é um erro estatístico que se recusa a ser corrigido, Viana — disse o Comandante, a voz desprovida de sua arrogância usual. Ele empurrou um tablet de cristal pela mesa. — O sistema marcou seu frame como 'Ameaça em Observação'. A Torre vai apagar sua linhagem dos registros de escalada. É o procedimento padrão para anomalias.
Kaelen não recuou. Ele projetou o log de combate sobre a mesa. O holograma exibiu o momento do impacto: a assinatura energética proibida, uma frequência que não deveria existir em nenhum andar conhecido. Valerius empalideceu. Ao ver a prova de que Kaelen não apenas sobrevivera, mas dominara a tecnologia, o Comandante recuou, a mão tremendo ao buscar o controle de segurança. Ele não estava furioso; ele estava com medo.
— Eu quero a licença para o próximo nível — exigiu Kaelen.
Valerius não respondeu. O silêncio que se seguiu foi a única concessão que Kaelen precisava. A licença foi autorizada, não por mérito, mas por um terror corporativo que o Comandante não ousou verbalizar.
O elevador de carga rangeu, um som metálico e agônico que ecoou pelo poço vertical. Kaelen estava confinado na cabine, o frame ocupando cada centímetro. O painel principal, corrompido pela integração, oscilou antes de exibir a telemetria do próximo nível. Ele esperava um campo de provas, uma arena de alta densidade. O que apareceu na tela, porém, fez seu coração saltar contra as costelas. Não havia sensores de alvo, nem zonas de regeneração. O que surgiu foi uma planta arquitetônica de contenção absoluta: celas de isolamento, sistemas de purga atmosférica e corredores projetados para impedir qualquer saída. Através dos sensores adaptados, Kaelen finalmente viu o que havia no próximo andar: não era uma sala de provas, era uma prisão.