Queda e Ascensão
O Vanguard-01 não caiu; ele foi deletado. O impacto contra o piso de obsidiana do Nível 4 não soou como metal retorcido, mas como um erro de leitura em um setor corrompido. Kaelen Viana sentiu o feedback neural como uma descarga elétrica que fritou seus nervos ópticos. O D-Clock, o contador de dívida, oscilava erraticamente no canto superior do visor, mudando de âmbar para um vermelho visceral que pulsava em sincronia com seu batimento cardíaco acelerado.
— Status do sistema: Integridade estrutural em 12%. Braço direito: Perdido. Unidade de processamento: Sobrecarga crítica. — A voz sintética da IA de bordo falhava, distorcida, como se a própria realidade da Torre estivesse tentando censurar sua existência. Kaelen forçou os olhos, ignorando o gosto de cobre que inundava sua boca. Ao redor do mech, não havia paredes de metal ou luzes de neon. O Nível 4 era um deserto geométrico de dados. Colunas de código binário subiam até o teto invisível, uma nevasca de caracteres brancos que se moviam contra a gravidade. Ele não estava em uma arena. Estava dentro do servidor central, o lugar onde a Torre decidia quem vivia e quem era apagado como um erro de arredondamento.
— Isso não é uma prova de combate — murmurou Kaelen, a voz rouca ecoando dentro da cabine claustrofóbica. — É uma lixeira corporativa. — Um zumbido grave vibrou através do chassi. O módulo protótipo, incrustado no núcleo do mech, começou a sugar créditos de sua conta em um ritmo frenético para compensar a falha estrutural. Cada unidade de moeda era convertida em nanorrobôs de reparo, uma hemorragia financeira que ele não podia estancar. O D-Clock não marcava apenas dívida; marcava o tempo de vida do seu chassi.
De repente, o ambiente mudou. Luzes brancas, estéreis e cortantes, varreram o corredor. Eram os 'Limpadores': drones de limpeza de dados corporativos, esferas cromadas que não disparavam balas, mas emitiam pulsos de desintegração lógica. Eles não miravam no mech; miravam na assinatura energética de Kaelen. Ele precisava de uma saída. Usando o módulo para sequestrar o fluxo de dados do setor, Kaelen forçou o Vanguard-01 a simular um 'processo de sistema' legítimo. O mech, arrastando o braço esquerdo retorcido, moveu-se com uma lentidão calculada através do labirinto de código. Quando um dos Limpadores se aproximou para purgar a anomalia, Kaelen sobrecarregou o reator, criando uma explosão controlada que forçou a abertura de uma escotilha de ventilação. Ele escapou do Nível 4, mas o preço foi alto: o sensor de proximidade revelou que Dantas já havia isolado a oficina de Bia, esperando por ele com uma força de elite.
Ao retornar aos níveis inferiores, Kaelen encontrou o setor mergulhado em uma revolta social. As ruas estavam em chamas, alimentadas pelo vazamento dos logs que ele transmitira. Mas a oficina de Bia era um ponto de silêncio tenso, cercada por soldados da Torre que ignoravam os civis, focados apenas na estrutura metálica onde a mecânica se escondia. Kaelen não hesitou. Ele usou o Vanguard-01, mesmo com a blindagem sacrificada e circuitos vitais expostos, para atrair o fogo inimigo. O mech soltava faíscas, cada movimento um risco de colapso, mas a distração foi suficiente. Bia abriu a porta, puxando-o para dentro enquanto o Vanguard-01 colapsava em um monte de metal inútil no centro da forja.
— Kael, se eu conectar o código dos logs diretamente ao seu córtex motor, não há garantia de que você retorne inteiro — a voz de Bia era firme, mas suas mãos tremiam enquanto ela soldava a armadura torácica. — A Torre não quer apenas o seu mech; eles querem apagar o erro que você se tornou no sistema.
Kaelen olhou para o contador D-Clock. A dívida subia, um alerta âmbar que piscava como um batimento cardíaco moribundo. Ele aceitou a fusão. A dor foi instantânea e absoluta, como se agulhas incandescentes estivessem sendo cravadas em seu cérebro, reescrevendo suas sinapses. Ele viu o código dos logs fluir — não como números, mas como a estrutura da própria Torre. O mech despertou, sua assinatura energética agora diferente de tudo que já operara. Ele encarou a porta da oficina. Dantas estava do outro lado, pronto para o abate, sem saber que Kaelen não era mais apenas um piloto, mas o sistema que ele tentava controlar.