Nível 3: A Arena de Neon
O ar na oficina de Bia tinha gosto de ozônio e metal queimado. Nos monitores, a fachada de benevolência de Dantas colapsava. O log de comando que Kaelen vazara há segundos varrera a rede da Torre, transformando cada setor em um ninho de vespas. Abaixo, o som metálico de botas de choque ecoava pelos corredores; a segurança não estava apenas investigando, estava expurgando.
— Eles vão reiniciar o protocolo de rede em três minutos — Bia disparou, os dedos dançando sobre o teclado holográfico. — Se você não estiver dentro do duto de ascensão quando a grade subir, será triturado. O sistema está tentando isolar a anomalia, mas a revolta nos níveis inferiores está sobrecarregando os servidores.
Kaelen não respondeu. Ele sentia o peso do Vanguard-01, uma carcaça de fibra de carbono despida de blindagem, operando como uma arma de vidro. Ele se conectou ao cockpit, sentindo a fusão neural do módulo protótipo cravar agulhas frias em seu córtex. A dor era o preço da conexão; a dívida era o preço da subida.
O Vanguard-01 gritou ao ser forçado para o duto de acesso. Sem a blindagem secundária, o chassi vibrava sob estresse crítico. O contador de créditos no HUD despencava: -500, -1.200, -3.000. O módulo sugava cada centavo para manter a integridade estrutural. Kaelen acessou o rastreador que Dantas plantara em seu traje e, com um comando seco, inverteu o sinal. O vírus escorreu como veneno pela rede de defesa do Nível 3. As torres automáticas giraram, não contra ele, mas contra os guardas da corporação. O metal cedeu, faíscas cegando os sensores. Kaelen acelerou.
O Vanguard-01 irrompeu na Arena de Neon, esmagando o portão principal. O impacto retumbou, fazendo o chão vibrar sob o público. As telas gigantes, antes usadas para propaganda, exibiam agora as ordens de Dantas que levaram o esquadrão de Kaelen à morte.
— Piloto Kaelen Viana — a voz de Dantas ecoou, distorcida pela raiva — sua insolência termina aqui. O sistema de salvamento foi desativado.
O Campeão de Dantas, um colosso de titânio polido, disparou. O impacto arrancou pedaços do ombro do Vanguard. Kaelen não recuou; ele precisava de proximidade. O módulo, faminto, drenou o último dos créditos de manutenção, forçando um overclock no reator que fez as luzes da arena piscarem em sincronia com seu pulso. Kaelen avançou, ignorando os alertas de falha estrutural, e sacrificou o braço funcional do Vanguard para forçar um curto-circuito catastrófico no núcleo do colosso. O Campeão caiu com um estrondo que silenciou a arena, antes que um rugido ensurdecedor de revolta subisse das arquibancadas.
Com a arena em caos, Kaelen conectou o Vanguard ao terminal central para purgar sua dívida. Ele não encontrou firewalls, mas um vácuo de dados que sugou sua consciência. A dor foi imediata. A Torre não estava processando finanças; ela estava processando pilotos. Seus logs de esquadrão não eram evidências de um crime; eram erros de arredondamento em um cálculo de eficiência. Kaelen foi puxado para o Nível 4, percebendo, tarde demais, que o centro de processamento da Torre não era um lugar de combate, mas uma câmara de descarte humano. Ele acabara de abrir a porta errada.