O Chassi do Futuro
O Vanguard-01 não era mais uma máquina; era uma ferida aberta. O chassi, uma carcaça de metal reforçado, tremia com espasmos elétricos que percorriam a espinha dorsal de Kaelen. A integração neural com os logs de sabotagem extraídos do Nível 4 não era uma conexão, era uma invasão. Cada bit de dado proibido queimava seu córtex como ferro em brasa, forçando-o a ver a Torre não como uma estrutura, mas como um algoritmo de descarte humano.
— Kael, se a fusão não estabilizar, o núcleo vai colapsar e levar este setor inteiro com ele — a voz de Bia era um fio de tensão, cortada pelo som metálico de ferramentas contra a blindagem. Ela estava sob o chassi, as mãos cobertas de graxa e faíscas, tentando soldar um dissipador de calor improvisado enquanto o D-Clock de Kaelen piscava em vermelho sangue: 04:12 para a falência neural.
— Não posso soltar — Kaelen sibilou, a voz distorcida pela interface. — Se eu desconectar, os logs se apagam. Dantas precisa que eu desapareça, mas o mundo precisa ver o que ele fez.
Lá fora, o som de botas magnéticas batendo contra o concreto ecoava como uma sentença de morte. Os Liquidadores de Dantas não estavam ali para prender; estavam ali para expurgar a anomalia. O zumbido do reator em sobrecarga vibrava nos dentes de Kaelen.
— O patch de desativação está em 87% — gritou Bia. — Se você sair agora, a assinatura proibida vai disparar o alarme de purga da Torre e eles vão fritar o que sobrou do seu sistema nervoso!
Kaelen não esperou. Ele sentiu o Vanguard-01 responder, não com a lentidão mecânica de antes, mas com uma agilidade que parecia distorcer o espaço. Quando a porta reforçada da oficina cedeu sob o impacto de uma carga de plasma, Kaelen já estava em movimento. Ele não apenas hackeou o sistema de suporte de vida dos Liquidadores; ele reescreveu a prioridade de energia deles, drenando-a para alimentar sua própria fusão neural.
O Comandante dos Liquidadores surgiu no vão da porta, blindado com o metal cinzento que Dantas negava aos pilotos de base.
— Viana — a voz do Comandante veio distorcida, carregada de desdém. — Você é um custo operacional que precisa ser liquidado.
Kaelen avançou. O Vanguard-01 rugiu com uma potência que não deveria existir em um chassi daquela categoria. Com um movimento preciso, ele desarmou o braço de plasma do inimigo e, através da conexão neural, forçou o sistema do comandante a abrir seus próprios registros de comando. Ali, diante de todos os sensores da rede local, os logs de sabotagem de Dantas foram transmitidos em tempo real.
O Comandante vacilou, seu mech paralisado por um conflito de autoridade entre a ordem de execução e a prova de corrupção sistêmica que Kaelen injetava na rede. O Vanguard-01, embora em chamas e com a integridade estrutural no limite, manteve-se firme.
Com a força de elite em desordem, Kaelen forçou o acesso ao terminal de comando do setor. A tela brilhou, revelando uma hierarquia que subia muito além do escritório de Dantas. O supervisor não era o mentor da sabotagem; ele era apenas um funcionário, um executor de um sistema muito mais vasto e impiedoso.
O Vanguard-01 emitiu um último alerta crítico. O cerco havia sido rompido, mas o preço estava claro: a Torre agora sabia exatamente quem ele era. Kaelen olhou para o topo da estrutura, onde as luzes da elite brilhavam, indiferentes à dor dos que processavam seus dados. A subida real estava apenas começando.