O Eco da Traição
O zumbido do reator do Vanguard-01 não era mais um som de operação; era um grito de agonia metálica que reverberava nas paredes de metal batido da oficina de Bia. O ar ali dentro era denso, saturado pelo cheiro acre de ozônio e óleo queimado. Kaelen observava a interface holográfica tremeluzir, as linhas de código descendo como uma cascata de sangue digital enquanto Bia, com as mãos manchadas de graxa condutiva, tentava estabilizar a conexão entre o módulo protótipo e o servidor local.
— Se a rede da Torre notar essa intrusão, estamos mortos antes do amanhecer — sussurrou Bia, sem desviar os olhos da tela. — O módulo está drenando o chassi, Kael. Ele não está apenas hackeando; ele está devorando a estrutura para manter a conexão aberta. Se não pararmos, o Vanguard vai colapsar sob o próprio peso.
Kaelen não respondeu. Seus olhos estavam travados no log de batalha 402-B, o arquivo que ele arrancara do coração da tempestade industrial no Nível 2. O cursor piscava sobre uma assinatura digital específica: Autorização de Teste de Estresse – Nível de Risco: Extremo. Supervisor Dantas.
— Ele não cometeu um erro de cálculo — Kaelen sentiu a voz falhar, uma pontada fria atravessando seu peito. — Eles não nos enviaram para uma missão de salvamento. Eles nos enviaram para ver quanto tempo o protótipo aguentaria antes de fundir nossos sistemas neurais. Meu esquadrão… eles foram descartáveis.
O módulo, integrado ao seu córtex, enviou uma descarga elétrica de alerta. Kaelen soltou um grunhido, agarrando a borda da mesa. A realidade era brutal: ele não sobrevivera por habilidade ou sorte, mas por uma falha no sistema que Dantas agora tentava corrigir. O Supervisor não queria apenas seu sucesso; ele queria apagar a testemunha de seu experimento.
Bia deslizou sob o chassi, as ferramentas faíscando. — O metal está cedendo, Kaelen! Se eu não trocar os atuadores agora, o mech vira sucata em dez minutos. Mas o sistema corporativo bloqueou tudo. Dantas cortou nosso acesso a qualquer peça de reposição. Estamos em um beco sem saída.
Kaelen cerrou os punhos. A escassez não era apenas burocrática; era um cerco. — Arranca a blindagem secundária. Vamos alimentar o módulo com o excesso de carga. Se não podemos consertar, seremos uma arma de vidro.
O metal rangeu em um protesto agonizante quando Bia cedeu, arrancando as placas de liga leve. O módulo protótipo, faminto, sugou a energia liberada, pulsando com uma luz violeta doentia que corroía o chassi exposto como ácido. O Vanguard-01 tremia, sua integridade estrutural pendendo por um fio, mas o canhão principal rugiu com uma frequência nunca vista. Kaelen sincronizou o sistema neural, sentindo a máquina vibrar em agonia sob sua pele. Era o suficiente para subir, mas, como Bia notou com um olhar sombrio, não era o suficiente para voltar.
O comunicador de pulso vibrou com um sinal codificado: o canal direto de Dantas. Kaelen sentiu o estômago revirar.
— Piloto Viana — a voz de Dantas era aveludada, uma máscara de benevolência corporativa que escondia o vazio de um carrasco. — Sua performance na tempestade industrial foi… inesperada. O conselho está impressionado. Gostaria de discutir seu futuro em um jantar de negócios, esta noite. No setor executivo. Considere isso uma conciliação.
Kaelen forçou os músculos da mandíbula a relaxarem. Ele sabia o que aquele convite significava: uma zona de exclusão de sinal, onde sua voz não teria ouvidos e sua vida não teria valor. Dantas queria silenciá-lo antes que a próxima prova pública começasse.
— Aceito o convite, Supervisor — respondeu Kaelen, sua voz firme, escondendo o ódio que fervia sob a pele.
Ao desligar, ele sentiu um leve calor na lateral do traje. Dantas, durante a última inspeção forçada, instalara um rastreador de alta frequência. Kaelen olhou para Bia. Ela viu a luz âmbar do rastreador refletida no visor dele. O jogo havia mudado. Ele não iria como vítima; ele iria como uma ameaça que Dantas subestimou. Enquanto preparava a transmissão dos logs incriminatórios para toda a rede da Torre, Kaelen visualizou o D-Clock: o tempo estava acabando, mas a arma estava pronta.