Ascensão de Baixo Custo
O D-Clock em minha visão periférica não apenas pulsava; ele sangrava um vermelho cáustico, drenando cada milissegundo de estabilidade financeira que me restava. Minha dívida não era apenas um número; era um predador que devorava minha dignidade a cada passo na fila da arena. Ao meu redor, o brilho cromado dos mechs de elite da corporação refletia o desdém dos pilotos que ostentavam insígnias de ouro. Eles pareciam deuses de metal, enquanto meu chassi, um amontoado de sucata rebatida com soldas expostas, soltava um chiado hidropneumático que atraía risos abafados.
— Piloto Viana? — A voz do Supervisor Dantas ecoou pelos alto-falantes, carregada de uma falsa polidez que fazia meu estômago revirar. — Seu chassi apresenta uma assinatura energética... irregular. A política da Torre é clara: sucata não entra em pista de elite. Sua autorização foi revogada.
O silêncio na fila tornou-se denso. Senti o olhar de centenas de espectadores nas arquibancadas, um peso invisível que me empurrava para o abismo. Se eu recuasse agora, a dívida seria triplicada por quebra de contrato. Era o fim.
— A assinatura não é irregular, Dantas. Está otimizada — respondi, minha voz saindo mais firme do que eu sentia. Sem esperar, direcionei o foco neural para o módulo protótipo fundido à minha espinha. A dor foi um relâmpago branco, um custo imediato, mas a recompensa veio em seguida: os dados de segurança da Torre, vulneráveis por um breve hiato, foram invadidos. O terminal de checagem apitou, uma luz verde autorizando minha entrada. Dantas, do alto de sua cabine de controle, estreitou os olhos, a surpresa mal escondida sob sua máscara de indiferença corporativa.
Entrei na Arena de Prova do Nível 1, e o ar tinha gosto de ozônio queimado. Três mechs de patrulha Bastion avançavam em formação de pinça. Eles não estavam ali para testar minha agilidade; estavam ali para apagar meu chassi do inventário da Torre. O primeiro projétil cinético arrancou placas de blindagem do meu ombro esquerdo. A náusea da fusão neural me atingiu, mas o módulo, agora uma linha azul elétrica percorrendo minha interface, começou a sequestrar a rede local. Eu via os vetores de ataque antes mesmo dos Bastions dispararem.
— Sincronização em 88% — a voz de Bia ecoou em meu canal privado, trêmula. — Kael, eles estão drenando a rede local para travar seus atuadores. Use o módulo agora!
Eu não respondi. Em vez de recuar, projetei o Carcassa para frente, ignorando o colapso estrutural iminente. O módulo reescreveu a física do combate, sequestrando a rede da Torre para mascarar meu consumo proibido. Em um borrão de velocidade impossível para um chassi daquela categoria, girei sobre o próprio eixo e disparei o propulsor de emergência contra o mech líder, atravessando sua blindagem como se fosse papel. A explosão resultante foi um espetáculo de luzes que silenciou a arena. O sistema da Torre, forçado a processar a anomalia, registrou a vitória com um som metálico de triunfo.
Saí da arena sob um rugido ensurdecedor da multidão. O D-Clock, antes em vermelho, agora piscava um tom âmbar de estabilidade forçada. Mas a vitória foi curta. Dantas me aguardava no corredor de manutenção, seus dedos tamborilando sobre um tablet holográfico.
— Uma manobra elegante, Viana — ele comentou, sem sorrir. — Mas a Torre não tolera anomalias. Você acha que subiu um degrau, mas só se tornou um alvo de alta prioridade.
Ele virou as costas, mas não antes de exibir um mapa de suprimentos na tela. As peças de reposição que eu precisava para a próxima subida não estavam em falta; estavam sendo desviadas. Dantas não estava apenas me bloqueando; ele estava garantindo que meu próximo teste fosse um suicídio. A ascensão, percebi, não era apenas sobre vencer combates. Era uma guerra contra o próprio sistema de suprimentos que mantinha a Torre de pé.