A Primeira Sinergia
O ar na oficina de Bia 'Sucata' Mendes tinha gosto de ozônio e óleo queimado — o perfume de desespero que Kaelen Viana conhecia bem demais. Sobre a bancada, o módulo protótipo pulsava com uma luz azulada que parecia devorar as sombras. Cada batida daquela luz era acompanhada por um zumbido grave que fazia os dentes de Kaelen vibrarem. No canto de sua visão, o D-Clock — o carrasco digital em sua interface neural — piscava em um vermelho agressivo: 42 créditos restantes. Abaixo de cinquenta, o sistema da Torre iniciava automaticamente o protocolo de despejo de ativos.
— Você trouxe uma sentença de morte para o meu chão, Kael — Bia disparou, as mãos sujas de graxa paradas no ar. Ela não se aproximou; o instinto de sobrevivência gritava mais alto que a curiosidade técnica. — Isso tem assinatura de elite. Se os censores da Torre farejarem esse nível de radiação, não vão apenas nos multar. Vão apagar nossa existência da rede.
— Dantas sabotou o campo de prova. Se eu não mudar o estado dessa máquina agora, serei descartado como dívida incobrável até o amanhecer — Kaelen rebateu, a voz rouca pela exaustão. Ele empurrou o dispositivo para mais perto dela. — Você quer ver a tecnologia da Torre ser usada para algo além de escravidão, não quer? Eu quero a subida. É a única chance.
Bia encarou o módulo, os olhos estreitados. Ela sabia que a assinatura era proibida, uma peça de engenharia que não deveria existir nos níveis inferiores. Com um suspiro de rendição, ela pegou o scanner de pulso. A integração não seria mecânica; seria uma intrusão.
Kaelen deitou-se na mesa cirúrgica, os cabos de interface neural perfurando a base de seu crânio como espinhos gelados. No visor, o D-Clock despencou: -4.800 créditos e caindo. A fome do módulo era insaciável. A cada pulso, o sistema drenava seus recursos vitais para estabilizar a fusão.
— Kael, se o D-Clock chegar a zero, o sistema vai considerar você um ativo falido — Bia murmurou, as mãos trêmulas ajustando o selante térmico. — Ele vai drenar sua energia neural para compensar o déficit. Você vai virar um vegetal.
— Termina — Kaelen rosnou. A dor da fusão foi imediata, uma corrente de choque que percorreu sua espinha. O módulo não se encaixou; ele se fundiu. Milhares de micro-filamentos dispararam através da interface, invadindo seu córtex motor. De repente, o mundo não era mais visão e som, mas dados brutos: a densidade do ar, a tensão estrutural das paredes da oficina, o fluxo de energia da rede local.
O pico de energia foi tão violento que as luzes de neon da oficina estouraram em uma chuva de faíscas. No mesmo instante, um zumbido de alta frequência ecoou do lado de fora. O sistema de monitoramento da Torre havia reagido.
— Ele está sugando a rede da Torre para se mascarar! — Bia gritou, mergulhando nas entranhas do painel principal enquanto um drone de varredura da Torre pairava lá fora, escaneando os becos com uma luz ultravioleta gélida. — Kael, se eles encontrarem a origem, não seremos apenas rebaixados. Seremos desintegrados.
Kaelen sentiu a conexão queimar. O protótipo estava reescrevendo os protocolos de segurança do seu chassi, sequestrando dados de rede para ocultar sua assinatura. A oficina mergulhou em trevas totais quando Bia cortou a energia principal, mas a tela do terminal de Kaelen ainda brilhava, teimosa. Um novo convite cintilava em letras douradas sobre o fundo escuro: uma vaga de escalada pública de alta periculosidade acabara de ser aberta pela Torre. O requisito de performance exigia exatamente a potência que o módulo agora lhe conferia.
— Eles abriram a vaga porque ninguém quer subir naquele setor — Kaelen sibilou, o calor do reator subindo por sua coluna. — É uma armadilha, Bia. Dantas sabe que algo mudou. Ele quer que eu suba para me caçar em público.
— Então por que está sorrindo? — Bia perguntou na escuridão.
Kaelen não respondeu. Ele tocou o terminal, confirmando a inscrição. O D-Clock, agora estabilizado por uma fonte de energia que ele mal compreendia, começou a contagem regressiva para o evento. Ele era agora um alvo de alta prioridade, mas, pela primeira vez, o topo da Torre parecia um lugar que ele poderia alcançar.