Dívida de Sangue no Campo de Prova
O cronômetro de dívida — um D-Clock de luzes rubras cravado no canto da minha interface neural — não parava de sangrar. 04:12. Quatro minutos e doze segundos para a falência total ou a execução da hipoteca do meu chassi.
— Kael, o sistema de resfriamento está no limite. Se você forçar essa curva, o núcleo vai derreter — a voz de Bia estalou no comunicador, carregada de estática e daquele tom de urgência que ela guardava apenas para quando eu estava prestes a morrer.
Ignorei. O Campo de Prova 04-B era um labirinto de metal retorcido e néon barato, projetado para quebrar homens e máquinas. O Supervisor Dantas, lá do alto, observava cada centímetro do meu erro. Ele não queria um piloto; ele queria um sucateiro endividado para preencher a cota de sinistros da semana.
— O curso é curto, Bia. Se eu aliviar, Dantas encerra o teste e meu chassi é confiscado antes de eu pagar a taxa de manutenção — respondi, sentindo o calor do reator subir pela espinha.
O Ferrugem, minha carcaça de segunda mão, protestou com um guincho metálico agudo. A manobrabilidade estava comprometida, os servomotores dos joelhos travavam a cada passo. À frente, o obstáculo final: um salto sobre o abismo central do setor. Era a manobra que Dantas escolhera para garantir que eu não voltasse inteiro.
— Ele está ajustando a gravidade do setor, Kael! Ele quer que você caia — Bia gritou. O D-Clock saltou para 01:45. A pressão era física, um peso no peito que tornava o ar rarefeito.
Eu não podia cair. Acelerei. O Ferrugem rugiu, as juntas gritando em protesto enquanto eu ignorava os avisos de colapso estrutural. No ar, o chassi estalou, a blindagem lateral cedendo sob a pressão gravitacional artificial. O impacto contra a plataforma de chegada foi brutal. O mech se desintegrou em uma nuvem de faíscas e metal, ejetando-me para o solo frio do Campo de Prova enquanto o sistema de contenção corporativo entrava em modo de varredura.
O cheiro de ozônio e metal queimado impregnava o ar. Arrastei-me para fora da carcaça fumegante, meus pulmões ardendo com a poeira metálica. À minha volta, o cemitério de titânio brilhava sob a luz dos refletores de busca. O som de turbinas de aproximação ecoou pelo vale. Os abutres de Dantas estavam a menos de trezentos metros. Meus olhos, injetados de adrenalina, buscavam o brilho azulado sob os escombros de um protótipo que explodira minutos antes de mim.
— Vamos, você não pode ter evaporado — sibilou, cavando freneticamente entre placas de blindagem retorcidas. Meus dedos sangravam, mas o toque contra o metal frio foi recompensado. Um núcleo de energia, menor que uma caixa de munição, pulsava com uma luz rítmica, quase orgânica.
No momento em que meus dedos se fecharam sobre a peça, um estalo sibilante percorreu minha interface. O D-Clock projetou-se em vermelho vivo diante de meus olhos, mas não para me cobrar; ele começou a drenar cada crédito restante em minha conta pessoal. Saldo: 4.200... 3.800... 2.900... O módulo estava se auto-reparando com o meu dinheiro.
Corri. As tubulações de ventilação eram o único caminho para fora antes que a equipe de recuperação me pegasse. Cheguei à oficina de Bia ofegante, o módulo pulsando contra meu peito como um segundo coração ilegal.
— Kael, se isso for o que estou pensando, você não apenas quebrou as regras, você assinou sua sentença de morte — Bia disse, sem desviar o olhar do microscópio. Ela não precisou perguntar; a assinatura energética do dispositivo, oscilando em tons de azul elétrico, era proibida em qualquer nível da Torre.
— Integra isso. Agora — insisti, jogando a peça na bancada.
Bia hesitou, a mão pairando sobre a ferramenta de fusão. Ela sabia que a tecnologia não era apenas hardware; eram leis de física distorcidas. Quando ela conectou o módulo ao chassi, a oficina inteira perdeu energia. O silêncio foi absoluto por um milissegundo, antes que as sirenes da Torre começassem a uivar em uníssono. Eles haviam detectado a assinatura proibida. O sistema de dívida de Kael travou no vermelho, consumindo seus últimos recursos enquanto o mech ganhava uma forma nova, letal e brilhante.