O Preço do Status
O cheiro de ozônio e metal queimado impregnava as Docas de Manutenção, um odor acre que Kaelen Vane aprendera a associar com a morte iminente de seu frame. Ele desceu do cockpit com as pernas trêmulas, a conexão neural do módulo experimental ainda enviando espasmos de dor fantasma por sua coluna. O "Sucateiro" estava um desastre: placas de blindagem tortas, servos hidráulicos chiando e o sensor principal piscando em um vermelho intermitente que denunciava uma falha estrutural total.
— Kael, o sistema de inventário acabou de bloquear nosso ID — a voz de Sora ecoou pelo laboratório, cortante e desprovida de qualquer otimismo. Ela estava debruçada sobre uma tela de diagnóstico, os dedos movendo-se com urgência maníaca. — Hektor não apenas revogou o acesso às peças. Ele colocou uma trava de segurança em todo o catálogo do Nível 5 para baixo. Se tentarmos forçar a compra, o sistema vai disparar um alerta de 'fraude de recursos' e confiscar o frame na hora.
Kaelen limpou o suor frio da testa com a luva suja de graxa, observando o brilho dos hologramas de ranking que pairavam sobre a metrópole lá fora. O número 402 brilhava com um desprezo silencioso. Ele sabia que o Sucateiro não aguentaria o Nível 6. Hektor queria que ele tentasse subir, que a falha acontecesse no meio da arena sob os olhos de toda a cidade. Era uma execução pública disfarçada de desafio.
— Precisamos de peças, Sora. Se não substituirmos esse atuador, o Nível 6 nos transformará em sucata na primeira curva — Kaelen disse, sentindo o peso do cronômetro da dívida invisível pressionando seus ombros.
Eles arriscaram o mercado negro nos níveis inferiores, um covil de pilhagem onde a luz do sol da Torre nunca chegava. O ar era pesado, carregado com o vapor de óleos sintéticos. Enquanto Sora inspecionava atuadores de frames de elite, a armadilha se fechou. Três unidades de patrulha da segurança de Hektor surgiram das sombras das colunas de suporte. Eles não estavam lá para uma inspeção; estavam lá para garantir que Kaelen não saísse vivo daquela negociação.
— Identificação de unidade: Sucateiro. Violação de protocolo de manutenção detectada — a voz sintética ecoou, fria e mecânica.
Kaelen não hesitou. Ele saltou para dentro do cockpit do Sucateiro, a dor da conexão neural atingindo seu cérebro como um martelo. Ele ativou o módulo proibido. Em vez de comandos padrão, ele enviou um pulso de telemetria bruta que sobrecarregou os sensores dos frames de patrulha, cegando-os momentaneamente. Ele manobrou o Sucateiro com uma agilidade impossível para um frame daquela classe, golpeando o primeiro atacante e usando o recuo para impulsionar a fuga pelas galerias de ventilação.
De volta ao laboratório, enquanto Sora realizava os reparos de emergência, ela parou subitamente. Ao abrir o núcleo do módulo para integrar as peças roubadas, ela empalideceu.
— Kael, isso não é uma arma — ela sussurrou, a voz trêmula. — A estrutura de dados... ela é recursiva. Está tentando mapear a arquitetura da própria Torre. O Sucateiro não foi feito para lutar, ele foi feito para processar o código-fonte da estrutura.
O sistema de segurança da Torre emitiu um alarme estridente. O protocolo de auditoria final estava ativo. O frame de vidro do laboratório estilhaçou sob o impacto de uma unidade de contenção de Hektor. Kaelen olhou para o Sucateiro, agora modificado, sabendo que o Nível 6 não era apenas uma prova de combate, mas o único lugar onde ele poderia esconder a verdade que o módulo carregava. Ele tinha doze horas, ou o sistema apagaria sua existência junto com o frame.