O Portão de Triagem
O zumbido do reator do Sucata-09 não era um som mecânico; era uma broca perfurando o crânio de Kaelen. Dentro do bunker de Valéria, o ar cheirava a ozônio e óleo queimado. Na tela principal, o contador de dívida da Torre piscava em um vermelho agressivo: 8.400 créditos. O cronômetro para o duelo de morte contra a guarda de Silas marcava menos de três horas.
Valéria ajustou um cabo neural no chassi do mech, as mãos firmes apesar da palidez. "O processador de mira está travado em 40%. Se você tentar um disparo de precisão contra os Vanguardas de Silas nesse estado, o sistema vai fritar seu córtex antes do primeiro tiro. O log ancestral precisa de uma chave de descompressão."
"E a chave é uma memória", Kaelen respondeu, a voz rouca. Ele encarou o refletor de dados. O sistema exigia um arquivo emocional de alta densidade para estabilizar a rede proibida. "A Torre não quer apenas o seu frame, Kaelen. Ela quer a sua identidade convertida em dados de controle. É um comércio cruel, mas é a única forma de contornar os limitadores."
Kaelen fechou os olhos. Sua mente buscou o arquivo. A imagem de sua mãe no antigo setor residencial, o cheiro de café barato, o som da chuva batendo na janela de metal antes da Torre confiscar tudo. Ele sentiu o peso da lembrança, a última âncora de sua humanidade, e a empurrou para o núcleo do Sucata-09. O sistema engoliu a memória com um clarão azulado. O vazio físico que restou em seu peito foi substituído por uma precisão cirúrgica no HUD. Ele estava pronto, mas sentia-se menos real.
O ar no Portão de Triagem do Setor 5-6 tinha o gosto metálico de ozônio. Kaelen manteve o Sucata-09 em marcha lenta, o chassi rangendo sob a pressão de uma dívida que, com as taxas de reparo da arena, saltara para 12.000 créditos. À sua frente, a barreira de energia cintilava com a luz fria e estéril da elite. O guarda, um homem com implantes oculares baratos que zumbiam em descompasso, estendeu a mão.
— Licença de subida, sucata. A taxa de processamento forense para frames de 'origem duvidosa' subiu. Dez mil créditos. Agora.
Kaelen sentiu o motor pulsar. Ele projetou a voz através do alto-falante externo, fazendo o som ecoar pelo corredor, captado pelos drones de transmissão que o seguiam como abutres.
— Dez mil? O regulamento oficial diz quinhentos. Vocês estão tentando roubar um competidor em transmissão direta?
O guarda empalideceu. A multidão virtual, assistindo em milhões de terminais, começou a clamar. A corrupção exposta em tempo real forçou o sistema a liberar a passagem. O portão se abriu, mas a luz do outro lado não era de glória. Era a luz de uma zona de descarte industrial, um lugar onde a Torre escondia o que não podia consertar.
Ao cruzar o limiar, o HUD do Sucata-09 entrou em colapso. ALVO PRIORITÁRIO DETECTADO. PROTOCOLO DE PURGA ATIVADO. O emblema da guilda de Silas projetou um holograma gigantesco. Silas não parecia um burocrata; parecia um homem em pânico, monitorado tão de perto quanto o próprio Kaelen.
— Você é um erro estatístico, Kaelen — a voz de Silas ecoou, distorcida por interferência. — O log que você carrega não é apenas proibido; é uma sentença de morte. A Torre não caça apenas o piloto. Ela apaga o software.
O teto do corredor se abriu. Três sentinelas de elite desceram em cabos de indução. O primeiro disparo de plasma atingiu o ombro do Sucata-09. Kaelen ativou o escudo reativo. A energia absorveu o golpe, mas o log de batalha revelou a verdade terrível: Silas não era o vilão, mas um escravo do sistema, forçado a destruir qualquer um que mostrasse o potencial proibido do Sucata. Kaelen estava sendo caçado pela própria fundação da Torre, que agora se fechava ao seu redor para apagar a anomalia que ele se tornara.