O Andar dos Esquecidos
O Vanguard-Zero rangeu, um som metálico de agonia que ecoou pela Arena de Prova do Primeiro Andar. Elias sentiu cada vibração do chassi como se fosse sua própria pele, a interface neural pulsando com a dor do sobreaquecimento. Ao redor, as arquibancadas da Academia ferviam. Eram vaias, gritos de desprezo e apostas sendo feitas contra a sucata que ele ousava chamar de frame. No centro do camarote de observação, Vargas estava imóvel, os braços cruzados, observando como quem espera o descarte inevitável de um lixo industrial.
— Mais uma falha de sincronia e o confisco é imediato, escalador — a voz do árbitro ecoou, fria e mecânica.
Elias não respondeu. Seus olhos estavam fixos nos três autômatos de vigilância que bloqueavam o caminho. O novo módulo, aquela peça de hardware que ele arriscara sua vida para adquirir, começou a projetar uma série de linhas de probabilidade sobre seu HUD. Não era apenas processamento; era uma leitura de intenção. O autômato central avançou, um golpe de lâmina de plasma traçando um arco de destruição. Pela lógica comum, Elias deveria recuar. A multidão soltou um riso coletivo, mas, no momento do impacto, Elias inclinou o frame em um ângulo impossível, deixando o plasma cortar apenas o ar onde ele estivera milissegundos antes.
O estádio silenciou. Os telões gigantes exibiam a assinatura de energia de Elias como um borrão estático, um erro de leitura que fazia os técnicos na cabine de controle suarem frio.
— Desconecte a unidade, Escalador — a voz de Vargas surgiu, gélida e autoritária. — O sistema detectou uma anomalia de Classe Proibida. Você está desclassificado.
Elias ignorou o aviso. Suas mãos, trêmulas pelo estresse da integração, ajustaram o manete. Ele não estava ali para seguir manuais. Ele forçou o núcleo do Vanguard ao limite, sobrecarregando o sistema de refrigeração. O Guardião do Primeiro Andar, um gigante de titânio polido, preparou um disparo de plasma, mas Elias já havia previsto a trajetória. Ele avançou, não para bloquear, mas para atravessar o ponto cego da máquina. Com um movimento bruto, ele cravou a lâmina de sucata no núcleo exposto do guardião. Uma explosão de faíscas metálicas iluminou a arena. O autômato tombou, inerte, enquanto o nome de Elias disparava para o topo do ranking nos telões da cidade.
Elias forçou a escotilha a abrir, sentindo o ar frio e carregado de ozônio inundar o cockpit. O sangue escorria de sua narina, manchando o painel. Ele desceu da plataforma, ignorando a vertigem. Vargas o aguardava na saída, o rosto uma máscara de desprezo institucional.
— Você tem ideia do que fez? — Vargas questionou, o tom contido, mas carregado de uma ameaça que os microfones da transmissão não captavam. — Você não apenas quebrou protocolos, você expôs uma falha que a Academia não perdoa.
— Eu venci, Vargas. Conforme o regulamento — Elias respondeu, mantendo o olhar firme. Ele sentia cada fibra de seu sistema nervoso latejar, mas usou o peso do olhar da multidão e das câmeras como um escudo. Ele era agora um alvo, mas um alvo que todos na cidade estavam assistindo.
De volta ao esconderijo, o silêncio era pesado. Marta não comemorou. Ela encarava um terminal antigo, cujos dados piscavam em um verde doentio. Quando ela se aproximou, a dureza em seus olhos fez o estômago de Elias gelar.
— Você não deveria ter usado esse módulo, Elias — ela sussurrou, a voz cortante. — Essa frequência de energia... ela não é apenas um protótipo. É uma assinatura de rastreamento. A mesma que o Conselho usou para marcar o frame do seu pai antes da 'falha catastrófica' no 4º andar.
Elias sentiu o sangue fugir de seu rosto. O zumbido nos ouvidos, efeito da sincronia forçada, tornou-se um rugido. Ele não havia apenas subido um andar; ele havia chutado a porta de um segredo que a Academia mataria para manter enterrado. O próximo desafio já piscava no terminal: o Segundo Andar, com uma dificuldade triplicada e a vigilância de Vargas agora focada em sua destruição total.