A Queda do Ídolo
O zumbido do 'Sucateiro' não era mais um ruído operacional; era um lamento de metal fadigado. Dentro da cabine, o painel de diagnóstico piscava em um vermelho visceral: integridade do núcleo em 12%. O calor da tecnologia biossintética instalada por Valéria queimava minhas costas, um pulsar úmido que se fundia à estrutura do frame. Na arena, o silêncio era a arma mais letal. Dez mil pessoas observavam o triunfo da minha gambiarra sobre o 'Aegis', o protótipo impecável de Victor Thorne, que agora jazia com o braço arrancado e faíscas escapando de suas juntas.
— Saia da arena, Kaelen! — a voz do oficial de segurança da Academia ecoou pelos alto-falantes. Eles não podiam me prender com a multidão filmando a prova da sabotagem que eu acabara de transmitir para os telões. Se eu desligasse o frame agora, a trava de segurança seria ativada e a Academia confiscaria a tecnologia proibida que sustentava minha vitória. Com um esforço que fez meus nervos latejarem em sincronia com o motor, forcei o Sucateiro a dar um passo, depois outro, arrastando-me em direção ao hangar sob o olhar de mil câmeras. Cada centímetro custava uma fortuna em desgaste orgânico.
Enquanto eu me arrastava para o exílio, o clã Thorne desmoronava. Na Sala de Comando, o ar era rarefeito, carregado com o cheiro de ozônio e o peso da falência iminente. Victor Thorne encarava a tela onde os índices de confiança do seu clã despencavam. Cada ponto de queda era uma notificação de rescisão de contratos. O Patriarca Thorne, sem sequer olhar para o filho, girou a cadeira de couro com um desdém gélido.
— Você transformou uma vitória garantida em um espetáculo de horrores — a voz do velho era uma lâmina. — Os investidores exigiram sua exclusão da linha de frente. Você lutará a final com um frame padrão, Victor. Se perder, não haverá mais um clã para lhe dar suporte.
Victor sentiu o desespero se transformar em um ódio puramente funcional. Ele não lutaria mais por honra, mas por sobrevivência social. Ele destruiria o Sucateiro, não pelo ranking, mas para apagar a prova viva de sua humilhação.
No laboratório de descarte, o encontro com Dra. Valéria foi breve e brutal. Joguei o chassi do frame sobre a bancada, as juntas rangendo como osso quebrado.
— A sabotagem está na rede, Valéria. O mundo sabe o que fizeram com meu pai. O que você escondeu por uma década agora é manchete — disparei, soltando um cabo de energia que faiscou contra o piso.
Valéria girou a cadeira, os olhos calculistas. — Você acha que venceu? Aquela tecnologia está se fundindo ao seu sistema nervoso. Se eu o abrir agora, você pode entrar em rejeição total.
— Então conserte — exigi.
Ela suspirou, iniciando os reparos, mas seu aviso pairou no ar como uma sentença: o frame não sobreviveria a mais um combate de alta intensidade.
De volta ao hangar, a contagem regressiva no terminal marcava 48 horas para o vencimento da minha dívida de 520 mil créditos. Foi quando o console de comunicação privada apitou. Uma mensagem criptografada de um investidor anônimo brilhou no monitor: “O clã Thorne está em chamas, Kaelen. Sua dívida pode ser quitada integralmente em dez minutos. O preço é apenas a carcaça que você chama de frame. Entregue-o para análise. O sistema biossintético não pertence a um sucateiro.”
Olhei para o meu braço, onde a cicatriz da interface pulsava em sincronia com a unidade central. Entregar o frame significava a liberdade financeira, mas também o fim da minha única chance de limpar o nome do meu pai na final. A escolha estava feita antes mesmo de eu responder. O relógio da dívida continuava avançando, e a sombra de Thorne, agora desesperado e sem recursos, pairava sobre a arena final como um predador ferido. O jogo mudara de patamar, e a próxima queda seria definitiva.