Sombras da Elite
O ar no Hangar de Manutenção da Arena tinha o gosto metálico de ozônio e desespero. Kaelen sentia a pulsação do 'Sucateiro' não como um comando de interface, mas como uma extensão febril de seu próprio sistema nervoso. As placas de blindagem, antes retorcidas e oxidadas, exibiam agora um brilho iridescente que pulsava em sincronia com o alerta de segurança da Academia. A auditoria de nível quatro fora uma sentença; a exposição pública da sabotagem do clã Thorne, um suicídio institucional.
— Kaelen, me escute — a voz de Dra. Valéria chiou no comunicador, distorcida por interferência pesada. — Eles detectaram a assinatura biossintética. Se entrarem aí, vão dissecar você e o frame. Purgue os logs de rede agora.
Kaelen olhou para o console. O frame não apenas hackeara o sistema; ele o absorvera. Dados de sabotagem, registros de manutenção falsificados e a assinatura digital do clã Thorne estavam fundidos ao núcleo do hardware. Ele era a prova viva de que seu pai, morto sob a ignomínia de uma falha mecânica, fora vítima de um descarte planejado.
— Se eu apagar os logs, perco a prova contra Thorne — Kaelen respondeu, a voz rouca. Ele sentia o calor emanando dos atuadores, um calor que não deveria existir em metal. O frame vibrou, as placas de blindagem rearranjando-se para reduzir o arrasto aerodinâmico enquanto ele forçava a conexão.
No monitor de segurança acima da plataforma, o rosto de Victor Thorne aparecia, pálido sob a luz artificial. O silêncio na arena era um vácuo de choque que antecedia a tempestade. Thorne não gritava; ele movia os lábios em uma ordem silenciosa para uma equipe de intervenção que já avançava pelos corredores, armados com pinças de contenção eletromagnética.
— Você é apenas um erro de cálculo, Sucateiro — a voz de Thorne soou, fria, pelos alto-falantes da arena.
Kaelen ignorou o desprezo. Seus dedos, trêmulos, navegavam pelo diretório raiz do servidor, sentindo o fluxo da rede como veias pulsantes. Ele forçou o acesso ao arquivo criptografado com o selo de linhagem da família Thorne. O download começou, mas o processo ativou um rastreador de localização. Sua posição estava exposta.
Ele disparou o impulso de curto alcance — uma manobra proibida — e sentiu a estrutura orgânica do frame fundir-se momentaneamente à rede elétrica do Setor de Descarte para ganhar velocidade. O frame não apenas deslizou; ele se contorceu pelo labirinto de carcaças, onde o empilhamento de frames obsoletos criava um corredor de sombras.
— Você é rápido, Kaelen, mas está correndo na direção errada — a voz de Valéria ecoou pelos alto-falantes do hangar.
Ao chegar ao laboratório secreto, o zumbido do ambiente era um som cortante. Kaelen observava o terminal, onde os registros da sabotagem ao frame de seu pai corriam em linhas de código frio. A prova não era apenas um log; era uma assinatura digital que levava diretamente ao clã Thorne. O peso da dívida de 520.000 créditos parecia agora uma piada cruel, uma coleira apertada por quem construiu sua fortuna sobre a ruína de outros.
— Você sabia — a voz de Kaelen soou, sem desviar o olhar do monitor. — Sabia que eles causaram a falha térmica para justificar a compra do novo modelo.
Valéria, parada nas sombras, não se defendeu.
— Eu vi o relatório há dez anos. Mas, na época, eu era apenas uma assistente. Se eu falasse, meu nome seria apagado da história. Você quer justiça? A justiça custa mais do que a sua dívida atual.
Um alarme estridente interrompeu a discussão. A tela exibiu uma transmissão de emergência: Victor Thorne dominava o ambiente, operando sob a autoridade total da Academia. Atrás dele, tropas moviam-se em formação de cerco. O jogo de sobrevivência terminara; a guerra começara. Kaelen fechou o punho, sentindo a tecnologia proibida em seu braço pulsar. Lá fora, o rugido da plateia começava a mudar de tom, clamando pelo nome do 'Sucateiro'. A verdade estava em seu sangue, e ele a usaria para incendiar a escada de poder da Academia.