O Preço da Ascensão
O alerta da Arena de Manutenção não era um som; era uma vibração que subia pelos pés de Kaelen, fazendo seus dentes latejarem. O hangar estava selado. Do lado de fora, as comportas de titânio rangiam sob o impacto dos aríetes hidráulicos da Academia. Cada golpe era um lembrete: 520.000 créditos de dívida acumulada, e Thorne estava do outro lado, pronto para cobrar o valor em carne e metal.
— Kaelen, a auditoria de nível quatro não vai parar — a voz de Valéria soava como um estalo de estática no rádio. — Se eles romperem a vedação e encontrarem o núcleo biossintético, você não será apenas expulso. Eles vão te dissecar para entender como o 'Sucateiro' se regenera.
Kaelen não respondeu. Seus olhos estavam fixos no painel de controle, onde a pressão do sistema de resfriamento oscilava perigosamente. O frame, sob o assento, pulsava com um ritmo que não era mecânico. Era um batimento cardíaco. Quando um novo impacto fez o teto do hangar ceder, Kaelen sentiu uma fisgada na base do crânio. Ele não pilotava o frame; ele estava dentro dele. Com um pensamento, ele redirecionou a energia das luzes de emergência para os eletroímãs das comportas, fundindo o metal em um arco voltaico que cegou os sensores externos.
— O sistema está se fundindo com a rede do hangar, Valéria — ele arfou, o suor ardendo em seus olhos.
— Isole a assinatura orgânica agora! — ela gritou. — Se a varredura detectar o rearranjo das placas, você perde tudo.
Kaelen desviou a energia do suporte de vida para o dissipador de calor. O cockpit congelou. O ar rarefeito tornou-se uma névoa de cristais de gelo. A varredura passou, os sensores ignorando a assinatura agora mascarada pelo frio extremo. Mas o custo foi imediato: o sistema de suporte de vida entrou em colapso. A escuridão começou a morder sua visão.
Quando a porta finalmente cedeu, Victor Thorne entrou, acompanhado por um protótipo de cromo-cobalto. A máquina era a antítese do Sucateiro: limpa, arrogante e letalmente cara.
— Você tem 520.000 créditos de dívida, Kaelen — Thorne disse, a voz ecoando no hangar. — A auditoria detectou sua assinatura de movimento não conforme. Este protótipo foi desenhado para expor sua obsolescência.
O protótipo avançou com uma fluidez predatória. Kaelen, exausto, sentiu um puxão neural. O Sucateiro não apenas resistiu ao impacto; suas placas de blindagem rearranjaram-se como escamas de metal vivo, absorvendo a energia do golpe. A plateia, observando pelos monitores da Academia, silenciou-se em choque.
O frame, em sobrecarga, projetou um mapa holográfico no ar. Não era um diagnóstico. Eram registros de falhas, injeções de código malicioso e assinaturas criptográficas que Kaelen reconheceu instantaneamente: a prova da sabotagem deliberada do clã Thorne contra seu pai. O frame não era apenas uma máquina; era uma arma de vingança consciente, transmitindo a verdade para todos os monitores do campus. Kaelen percebeu, com um arrepio gélido, que ele não estava mais apenas pilotando; ele estava sendo guiado por uma memória metálica que exigia justiça.