Sinais de Oxidação
O ar no laboratório de descarte da Dra. Valéria tinha gosto de cobre e ozônio. Kaelen observava o Sucateiro suspenso pelos guindastes hidráulicos, uma carcaça de metal que, sob a luz fria do setor de descarte, parecia mais um cadáver do que uma máquina de guerra. O núcleo biossintético, instalado no peito do frame, pulsava com uma cadência irregular, emitindo um zumbido que fazia os dentes de Kaelen vibrarem.
— Ele está vazando, Kaelen — Valéria disse, sem desviar os olhos do monitor de diagnóstico. O brilho azulado do núcleo não era constante; ele oscilava, criando uma assinatura térmica que desafiava a lógica dos sensores da Academia. — Se a auditoria de amanhã passar pelos sensores de perímetro, eles vão rastrear essa frequência até o seu peito antes mesmo de você chegar à plataforma de lançamento. Você não está apenas pilotando uma máquina; você está carregando uma bomba-relógio.
Kaelen limpou a graxa das mãos em um trapo imundo. O contador em seu pulso exibia 520.000 créditos em vermelho pulsante. A dívida não era apenas um número; era o peso de gerações de fracassos de seu clã, agora comprimidos em uma contagem regressiva de 72 horas.
— Eu preciso desse frame para o confronto contra o protótipo do Thorne — Kaelen respondeu, a voz rouca. — Se eu aparecer com um modelo padrão, serei destruído em dez segundos. O que podemos fazer para silenciar a assinatura sem matar a performance?
Valéria soltou um suspiro seco. — Podemos sobrecarregar os dissipadores de calor, forçando a energia a se dispersar em uma frequência de ruído branco. É uma solução temporária. Se você exceder a carga, os dissipadores podem fritar, e você ficará sem controle de voo no meio da arena.
— Faça — Kaelen não hesitou. — Sem isso, não há arena para mim de qualquer forma.
Na manhã seguinte, o Hangar de Provas era um caldeirão de tensão. Kaelen ajustava um conector no flanco do frame quando o som de botas polidas ecoou pelo metal. Victor Thorne caminhava com a arrogância de quem possuía o terreno, acompanhado por dois auditores da Academia cujos tablets emitiam uma luz azulada, fria e acusatória.
— O 'Sucateiro' — Thorne parou a poucos metros, os lábios curvados em um sorriso que não chegava aos olhos. — Ouvi dizer que seu frame anda emitindo assinaturas de energia, digamos, não convencionais. A Academia valoriza a inovação, Kaelen, mas detesta o que não pode controlar.
Kaelen manteve a chave inglesa apertada na mão, o coração batendo contra as costelas. — É um modelo antigo, Thorne. Peças de segunda mão exigem ajustes constantes. Se você veio aqui apenas para admirar a ferrugem, está perdendo seu tempo precioso.
Thorne soltou uma risada curta e se aproximou, ignorando o protocolo de segurança para tocar a blindagem do frame. — Seus ajustes são curiosos, Kaelen. Mas a dívida que comprei de você não me dá apenas o direito de cobrar os juros; me dá o direito de garantir que o ativo não seja uma sucata perigosa. Auditor, comece o diagnóstico de nível quatro.
Kaelen sentiu o sangue gelar. Um diagnóstico de nível quatro revelaria a tecnologia proibida em segundos. Ele precisava de uma distração.
— Thorne, se você está tão preocupado com o ativo, por que não me deixa provar a eficiência dele agora? Um teste de estresse na arena. Se ele falhar, você tem o direito de confisco imediato. Se eu passar, você cancela essa auditoria intrusiva.
Thorne hesitou, o brilho de poder em seus olhos lutando contra a vontade de humilhar Kaelen publicamente. — Uma aposta tola, Sucateiro. Aceito. Mas o teste será contra o sistema de defesa máximo da arena.
Minutos depois, Kaelen estava na cabine. O ar, saturado pelo cheiro de ozônio, pesava em seus pulmões. — Kaelen, mantenha a frequência abaixo dos 40Hz — a voz de Valéria soava pelo comunicador. — Se o sensor da auditoria captar a assinatura biossintética, eles te apagam do registro.
O Sucateiro gemeu sob a gravidade artificial. Obstáculos holográficos piscavam, exigindo reflexos que o sistema superaquecido mal conseguia processar. Kaelen forçou uma curva fechada, a estrutura do joelho emitindo um guincho metálico agonizante. No momento em que estabilizou, a tela de diagnóstico piscou, revelando uma oscilação de energia incompatível com os padrões da Academia.
— A assinatura está vazando! — alertou Valéria.
O frame entrou em modo de emergência. Em vez de travar, a estrutura começou a pulsar em um ritmo orgânico, as placas de metal se rearranjando como escamas para conter o calor. O sistema da Academia emitiu um alerta vermelho, o som de sirenes inundando a arena. O hangar travou, selando as saídas. Kaelen estava preso, com o frame emitindo uma luz pulsante que não era mais apenas mecânica, enquanto os auditores, do lado de fora, finalmente isolavam a anomalia de movimento que ele tentara esconder.