Escada de Vidro
O ar na Arena Principal da Academia tinha o gosto metálico de ozônio e desprezo. Kaelen ajustou os cintos de contenção, sentindo a vibração instável do seu frame, o 'Sucateiro'. O chassi, um amontoado de peças de descarte soldadas sob pressão, gemia sob o peso das modificações da Dra. Valéria. No painel de telemetria, o contador de dívida brilhava em um vermelho clínico: 450.000 créditos. O prazo de 72 horas para a primeira parcela de juros era um martelo batendo em seu crânio a cada segundo.
— Atenção, pilotos. O ranking acadêmico está em jogo — a voz do locutor ecoou, fria e desprovida de empatia. — Kaelen, o 'Sucateiro', enfrenta o veterano de classe média, Jaxon. Que a eficiência técnica dite o vencedor.
A plateia, uma massa de herdeiros de clãs e bolsistas privilegiados, rugiu em vaias. Do camarote privativo, Victor Thorne observava com um sorriso gélido. Kaelen não respondeu. Ele fechou os olhos e sentiu o pulso do frame. A tecnologia orgânica, selada em segredo no núcleo, pulsava contra sua espinha, um calor estranho que parecia antecipar os movimentos de Jaxon antes mesmo que o oponente iniciasse o ataque.
Jaxon avançou. O impacto fez o Sucateiro recuar, as articulações de metal retorcido emitindo um guincho agudo. Kaelen ignorou o aviso de falha estrutural. Ele ativou o núcleo proibido. O frame respondeu com uma aceleração impossível, uma manobra de esquiva lateral que deixou Jaxon golpeando o ar vazio. Em um movimento fluido, Kaelen desferiu um contra-ataque preciso, derrubando o frame do oponente com um impacto seco. A plateia silenciou por um milissegundo antes de retomar as vaias, mas o placar não mentia: Kaelen havia subido uma posição.
No corredor de manutenção, a vitória durou pouco. Assim que Kaelen desceu da cabine, Thorne bloqueou o caminho, flanqueado por auditores de olhar gélido.
— Impressionante, Sucateiro — disse Thorne, o desprezo polido em cada sílaba. — Mas o conselho de auditoria não compartilha do meu entusiasmo por improvisos perigosos. — Um dos auditores tocou seu tablet. — Sr. Kaelen, detectamos hardware não homologado. Sua dívida foi reajustada. — A tela exibiu o novo valor: 520.000 créditos.
— Isso é extorsão — Kaelen sibilou, mas Thorne apenas deu um passo à frente, sua voz amplificada pelo sistema de som do corredor para que todos ouvissem.
— Para testar a verdadeira integridade do seu equipamento, o próximo oponente será um protótipo de elite experimental da linhagem Thorne. Prepare-se para a desintegração pública.
Kaelen não esperou. Ele correu para o laboratório de descarte. Valéria estava lá, analisando os dados de combate.
— Ele está se adaptando, Kaelen — ela disse, sem desviar os olhos das telas. — A tecnologia que você trouxe não é apenas hardware. É biossintética. Ela está lendo seus impulsos nervosos. Se a Academia escanear essa frequência, você não será apenas expulso; será preso por contrabando de tecnologia viva.
— Thorne quer que eu morra na arena — Kaelen respondeu, o desespero transformando-se em uma frieza cortante. — Dê-me a modificação. Se vou cair, que seja forçando o sistema a ver o que ele finge que não existe.
Valéria hesitou, então assentiu. Ela iniciou o procedimento de integração. Nas horas seguintes, enquanto Kaelen forçava o frame em treinos exaustivos no subsolo, a máquina respondia com uma cadência quase consciente. Mas enquanto ele testava os limites da nova agilidade, o painel de diagnóstico piscou em carmesim.
Anomalia detectada: Assinatura cinemática não conforme.
O sistema de segurança da Academia havia captado a assinatura. O tique-taque da dívida e a pressão do próximo duelo tornaram-se secundários diante do alerta de auditoria. Kaelen tinha menos de 24 horas antes que seu frame fosse confiscado para uma análise que revelaria o segredo orgânico, selando seu destino.