Arena de Descarte
O ar na cela de contenção da Academia tinha o gosto metálico de ozônio e desinfetante barato. Kael não precisou abrir os olhos para saber que estava no subsolo do Setor de Recuperação; o zumbido constante dos magnetos de contenção no teto era a trilha sonora da sua miséria. Ele tentou mover as mãos, mas o metal das algemas de pulso, conectadas diretamente ao sistema da instalação, enviou um choque de baixa voltagem pelos seus nervos.
— Onde está o Sucata-01? — Kael rosnou, a voz rouca pelo esforço de manter a consciência.
Um guarda da Academia, cujas ombreiras brilhavam com o emblema da dívida de Vane, parou diante da grade de energia. Ele não parecia um soldado, mas um contador fardado com um cassetete elétrico no cinto. O homem sorriu, um gesto desprovido de qualquer calor humano.
— O seu amontoado de ferrugem? Está sendo desmantelado, Kael. Vane não quer apenas o confisco; ele quer o núcleo. Ele sabe que há algo ali que não deveria existir em uma sucata de baixo escalão. Menos de quarenta e seis horas para a análise total, e você é apenas o combustível para o processo.
Kael sentiu o estômago revirar. Se o núcleo fosse exposto, não seria apenas seu frame que seria destruído; sua vida inteira, cada centavo de dívida acumulada, seria cobrada em carne e sangue.
— Vane tem medo — Kael disse, forçando um sorriso apesar da dor. — Ele sabe que, sem o meu frame, ele é só um burocrata sentado em cima de uma bomba-relógio.
O guarda não respondeu. A grade se abriu, e Kael foi arrastado para fora. Ele não foi levado para uma sala de interrogatório, mas para a Arena de Extermínio. O domo se abriu acima deles, revelando a luz artificial e o rugido da multidão que aguardava o espetáculo de sangue. Dois frames de treinamento, modelos básicos da Academia, surgiram das comportas opostas. Eles eram robustos, pintados com o branco impecável da instituição, e seus canhões de pulso já zumbiam.
"Piloto Kael, categoria de dívida: insolvente. Prova: extermínio público. Sobrevivência: opcional," a voz sintética ecoou.
Kael correu para o centro do piso metálico. Ele não tinha um frame, mas tinha o instinto. O 'Fluxo de Sucata' não precisava de um cockpit para pulsar; ele sentia a rede elétrica da arena sob seus pés. O que Vane via como entulho, Kael via como uma extensão do seu sistema nervoso. Ele mergulhou atrás de uma chapa de blindagem desativada enquanto um pulso térmico derretia o concreto onde estivera um segundo antes.
Kael tateou o metal. Seus dedos, calejados pelo trabalho na oficina de Sora, encontraram um cabo de alta tensão exposto. Com um movimento preciso, ele o arrancou e o conectou à carcaça de um mech destruído. Quando o primeiro frame de treinamento avançou, Kael ativou a sobrecarga. Uma descarga de energia azul irradiou do metal, travando os servomotores do oponente.
O segundo frame, cauteloso, disparou. Kael usou o corpo do oponente imobilizado como escudo, sentindo o impacto vibrar em seus ossos. A multidão, antes sedenta pelo seu fim, começou a vibrar com a audácia do movimento. Kael não estava apenas lutando; ele estava orquestrando o caos.
No momento em que desarmou o segundo oponente e usou o próprio frame como aríete para romper a barreira de segurança, o visor do seu traje piscou. Uma sequência de código verde-fluorescente inundou sua visão. Era Sora.
"Não é sucata, Kael. Olhe o hash do núcleo. É um protótipo militar série 'Égide', banido há décadas. A Academia não quer o componente; eles querem apagar a evidência. Se você sair com o registro de telemetria, eles perdem o controle da narrativa."
Kael olhou para a cabine de comando. Vane estava lá, pálido, percebendo que o azarão não apenas sobrevivera, mas agora possuía a prova que destruiria a credibilidade da Academia. A escada de poder acabara de mudar de forma, e Kael estava no topo da mira.