O Segredo do Núcleo
Sora limpou o óleo das mãos com um trapo sujo, os olhos fixos no núcleo Égide que pulsava sobre a bancada improvisada. Quarenta e seis horas. Era tudo o que restava antes que os algoritmos da Academia terminassem de varrer os logs confiscados e descobrissem que o protótipo banido ainda existia — e que Kael carregava a telemetria capaz de derrubar Vane.
O cheiro de metal quente e ozônio ainda grudava na pele dela. Kael acabara de cair do duto de ventilação da Arena de Extermínio, o rosto cinzento, sangue seco na narina. O Fluxo de Sucata cobrava seu preço mais uma vez: o implante neural dele chiava baixo, como um motor prestes a fundir.
— Não era sucata — murmurou Sora, projetando o holograma dos circuitos. A arquitetura militar brilhava em linhas proibidas, simétricas demais para qualquer frame comercial. — Seu pai não morreu por acidente técnico. A Academia testou o limite deste Égide nele. Depois apagou os registros e te cobrou a conta.
Kael se encostou na parede de zinco, respirando curto. O contador de dívida projetado na parede marcava 2.847.000 créditos. Top 10 do ranking provisório após a arena, mas sem frame, sem peças e com os fornecedores da elite já recebendo ordens de boicote.
— Então eu sou a prova viva — disse ele, voz rouca. — E Vane é o credor que quer me apagar antes que eu use isso.
Sora não respondeu com piedade. Seus dedos voaram sobre o teclado improvisado. O núcleo respondeu com um pulso azul-cobalto mais forte. Dados criptografados começaram a se desenrolar: especificações de “Executor de Sistema”, permissões de nível zero, logs de falha que apontavam diretamente para ordens assinadas por Vane.
— Ele não quer só o frame de volta. Quer destruir o núcleo antes que a telemetria seja transmitida publicamente — disse ela. — Mas tem um problema. Este Égide foi feito para ignorar bloqueios da própria Academia. Se eu conseguir estabilizar o núcleo, ele pode acessar os servidores centrais sem deixar rastro.
Um zumbido metálico cortou o ar. Drones de patrulha da Academia varriam o teto da oficina clandestina. Luzes vermelhas dançaram entre as frestas.
Kael pegou o rifle de pulso improvisado. Sora ergueu a mão.
— Não. Se eles capturarem o sinal do núcleo sob pressão de rede, tudo some. Preciso de tempo para um pulso reverso.
Ela conectou o terminal portátil de Kael diretamente ao núcleo. O Fluxo de Sucata ativou no implante dele. A dor veio como arame farpado rasgando os nervos. Kael trincou os dentes até sentir gosto de sangue, mas manteve o contato. O núcleo aceitou o comando de autoridade suprema. Um clarão eletromagnético explodiu para fora da oficina.
Os drones caíram como moscas mortas, baterias fritadas, carcaças fumegantes no concreto úmido.
Silêncio. A oficina cheirava a circuito queimado. O holograma agora mostrava o novo status: Sucata-01 listado como “protótipo recuperável — prioridade zero”. E, ao lado, o ranking atualizado: Kael subira para nono lugar. Visível. Público. Irreversível.
Mas o preço estava ali, em números vermelhos: custo de manutenção do Fluxo de Sucata dobrado novamente. Fornecedores de peças recusando pedidos. Mensagens automáticas de cobradores chegando a cada três minutos.
Sora desligou o holograma principal e olhou para Kael. Pela primeira vez, a voz dela carregava algo além de cinismo.
— Você agora tem uma arma que a Academia não pode ignorar. Mas eles vão boicotar cada parafuso, cada solda, cada gota de refrigerante que você tentar comprar. Está sozinho contra o sistema inteiro, Kael. E o próximo Desafio de Elite que Vane vai impor não será em arena de descarte. Será transmitido para o país inteiro.
Kael limpou o sangue da narina com as costas da mão. O núcleo Égide pulsava mais estável, quase vivo. Pela primeira vez, o frame não parecia uma sentença de morte. Parecia uma chave.
— Então que venha o boicote — disse ele, guardando o terminal com a telemetria incriminatória. — Eu não subo essa escada pedindo permissão.
Do lado de fora, sirenes distantes já se aproximavam. A elite sabia exatamente o que ele carregava agora.
E o cronômetro marcava quarenta e cinco horas e cinquenta e oito minutos.