O Fluxo de Sucata
O ar na oficina de Sora tinha gosto de cobre e óleo velho. Kael desceu do cockpit do Sucata-01, as mãos ainda vibrando pelo feedback tátil das manobras de limite. O frame, uma carcaça de placas desalinhadas, soltava chiados de vapor. Cada respiração do núcleo era um lembrete: ele estava operando no vermelho.
Sora não se virou. Estava debruçada sobre o terminal holográfico, onde o contador de dívida da Academia pulsava em um tom de âmbar doentio. O reajuste pós-vitória havia chegado, e o número era uma sentença.
— O sistema não perdoa, Kael — disse ela, a voz cortante como uma lâmina de corte a plasma. — Sua vitória na arena não comprou sua liberdade. Ela te deu um alvo nas costas e uma dívida que dobrou de tamanho. Se não pagarmos a parcela de manutenção até o fim do ciclo, a Academia vai confiscar seu núcleo. Sem ele, você é apenas um amontoado de sucata.
Kael limpou o suor da testa com uma luva imunda. — Eu venci. O público viu. Achei que isso contaria pontos para o ranking.
— O ranking é uma coleira — ela retrucou, finalmente encarando-o. Seus olhos tinham o brilho de quem já viu o sistema devorar pilotos melhores. — Eles elevaram o nível da próxima prova. Querem que você falhe. Querem que seu frame seja desintegrado para que possam vender as peças como material de segunda mão. A única forma de sobreviver é forçar o 'Fluxo de Sucata'.
Kael sentiu o peso da escolha. Instalar o componente proibido — extraído de um frame de elite que a própria Academia tentou apagar da história — era um crime técnico. Ele assentiu, a desesperança dando lugar a uma fria determinação.
Sob a luz intermitente de um neon falho, o trabalho começou. Sora guiava o conector com precisão cirúrgica, enquanto Kael segurava o estabilizador improvisado. O componente pulsava com uma luz azul instável, rejeitando os protocolos de segurança do Sucata-01. Faíscas voaram, o metal gemeu, e o frame estremeceu como se estivesse vivo e sob tortura. Quando a peça foi finalmente selada, um zumbido metálico perturbador ecoou pelo galpão. O frame estava pronto, mas era uma bomba-relógio.
Kael levou o Sucata-01 ao simulador de combate. No cockpit, o contador de dívida brilhava em vermelho clínico: quarenta e seis horas restantes. Ele acionou a alavanca de sobrecarga. O efeito foi imediato. O frame, antes um amontoado de sucata, moveu-se com a agilidade de um predador de elite. Kael esquivou-se de uma bateria de mísseis virtuais com uma precisão impossível. Contudo, o custo foi instantâneo: os circuitos do braço esquerdo começaram a derreter, o calor irradiando para dentro da cabine.
— Kael, corta o fluxo! — a voz de Sora estalou no comunicador. — Se o invólucro ceder, você não terá apenas uma dívida, terá uma cratera no lugar do seu mech!
Ele desligou o sistema, mas o dano estava feito. O custo de manutenção disparou, dobrando novamente devido ao desgaste acelerado. Antes que pudesse processar o prejuízo, a tela da central de transmissão na oficina estalou. O rosto do Comandante Vane ocupou o espaço, frio e imponente.
— Aos aspirantes que insistem em desafiar a ordem — a voz de Vane reverberou, desdenhosa. — O ranking da temporada está oficialmente bloqueado. Devido à anomalia de desempenho observada, a Academia implementou um novo degrau. O Desafio de Elite está aberto.
Não era um convite; era um expurgo. O Desafio de Elite era um moedor de carne projetado para frames de fábrica. Sora, ao lado do terminal, não olhou para cima, mas sua voz carregava um peso sombrio: — O preço de entrada é a sua cidadania, Kael. Se falhar, eles não vão apenas tomar as peças. Vão confiscar seu histórico e te deportar.
O 'Fluxo de Sucata' foi ativado, o zumbido do motor subindo para um lamento agudo. Kael tinha o poder necessário para a arena, mas o custo de manutenção acabara de dobrar, e o novo degrau no ranking era muito mais alto do que qualquer um poderia prever.