Fora dos Muros
O ar no hangar da Cidadela tinha gosto de ozônio e desespero. Kaelen sentia o calor residual do Sucata-7 irradiando através de suas luvas, um aviso térmico que o sistema de resfriamento, sobrecarregado, não conseguia mais ignorar. À porta, o som das botas dos inspetores do Conselho era um metrônomo de execução. Eles não queriam apenas o frame; queriam a anomalia que permitira a Kaelen humilhar Rico Valerius.
— Dez minutos, Kaelen — a voz da Dra. Vane soou fria pelo comunicador, mas ele detectou o tremor na frequência. — Se eles encontrarem a assinatura neural do módulo, não haverá tribunal. Será confisco e eliminação.
Kaelen não respondeu. Ele estava imerso na interface, sentindo o módulo experimental pulsar como um coração de mercúrio. Não era apenas hardware; era uma inteligência distribuída que agora tentava se fundir ao chassi do Sucata-7. Filamentos metálicos, finos como fios de seda, deslizavam pelas juntas do frame, reparando microfissuras que a manutenção oficial ignorara por anos. Ele forçou uma sobrecarga controlada no dissipador, criando uma cortina de interferência eletromagnética que cegou os sensores dos inspetores por preciosos segundos. Foi o suficiente para esconder o núcleo sob uma camada de código obsoleto, um truque de mestre que custou a Kaelen uma queimadura de segundo grau na interface neural.
O Inspetor-Chefe entrou, os olhos varrendo a baía com desdém. Rico Valerius o seguia, o rosto uma máscara de ódio contido.
— O frame está instável, cadete — o Inspetor declarou, a voz ecoando no concreto. — Sua performance foi uma anomalia estatística. Como punição pela negligência térmica e para testar sua utilidade, você será enviado à Zona de Exclusão. Reconhecimento de campo. Sem suporte.
Era uma sentença de morte. A Zona de Exclusão era um cemitério de mechs onde o Conselho descartava o que não podia consertar.
Horas depois, o Sucata-7 avançava sobre o metal retorcido da zona. O ambiente era um labirinto de esqueletos de aço. A rota designada por Rico era um beco sem saída magnético.
— Kaelen, pare — Vane alertou. — Os sensores de proximidade estão sendo manipulados. É uma emboscada.
Antes que ele pudesse reagir, um pulso magnético atingiu o Sucata-7, travando seus servos. Rico e seu esquadrão de elite emergiram das ruínas, armas de energia carregadas.
— O Conselho quer a carcaça, Kaelen. Eu só quero o que tem dentro dela — Rico zombou, a voz carregada de um medo que ele tentava esconder sob a arrogância.
Kaelen sentiu o módulo em seu peito vibrar em um padrão rítmico. Ele não tentou reiniciar o motor. Em vez disso, forçou o módulo a buscar uma diretriz de autorreparação. O artefato não era um processador; era um farol. Ao redor deles, as carcaças de mechs abandonados começaram a vibrar, soltando-se do solo como se atraídas por um ímã colossal. Placas de blindagem, cabos e pistões voaram em direção ao Sucata-7, fundindo-se à sua estrutura.
O frame cresceu, tornando-se uma quimera de metal e tecnologia proibida. Kaelen sentiu a rede despertar. Ele não estava mais sozinho; ele era o centro de uma inteligência que se comunicava com cada destroço ao seu redor. Rico recuou, aterrorizado, enquanto o Sucata-7 se erguia, maior e mais letal. Kaelen olhou para o horizonte de metal. Ele não era mais o pária. Ele era a ameaça.