O Preço da Vitória
O ar dentro do cockpit do Sucata-7 tinha o gosto metálico de sangue e ozônio. O chassi, uma carcaça que deveria estar no ferro-velho, gemia sob o estresse térmico. Kaelen sentia o calor irradiando através do assento, uma febre mecânica que ameaçava fundir os circuitos neurais que ele tanto lutara para proteger. Do lado de fora, o silêncio da arena era mais pesado que o rugido da multidão que acabara de testemunhar a humilhação de Rico Valerius.
— Kaelen, o sensor térmico da Cidadela detectou a assinatura proibida — a voz da Dra. Vane cortou o canal privado, seca e urgente. — Eles não estão vindo para uma revisão de rotina. Estão vindo para confiscar o frame e levar você para o interrogatório. Dez minutos. É o tempo que você tem antes que o selo da escotilha seja rompido.
Kaelen soltou o cinto, ignorando a pontada aguda em suas costelas. O cockpit era um labirinto de luzes vermelhas. Ele precisava extrair o módulo, mas o calor residual havia soldado as travas de segurança. Se forçasse a remoção agora, o módulo liberaria um pulso de energia que fritaria os logs do sistema — e possivelmente seus próprios nervos. Ele precisava de um código de erro, uma mentira digital que justificasse a falha como um defeito mecânico comum, não como uma manipulação neural.
Com os dedos trêmulos, ele acessou o terminal secundário. Nove minutos. Ele digitou a sequência de comando que Vane preparara, disfarçando o pico de energia como uma falha na injeção de combustível. O sistema aceitou a fraude. O módulo, uma protuberância de circuitos arcaicos fundidos com filamentos de luz azulada, soltou-se com um suspiro magnético. Kaelen o agarrou, sentindo a vibração estranha da peça contra sua pele, e o escondeu no compartimento secreto sob o assoalho do hangar.
Segundos depois, a porta principal sibilou. O Inspetor-Chefe entrou, seus olhos gélidos varrendo o hangar com a precisão de um predador. Ele parou diante do Sucata-7, agora inerte.
— Onde está o log de diagnóstico, cadete? — a voz do Inspetor era desprovida de qualquer emoção humana.
Kaelen manteve a postura, escondendo a exaustão. — O sistema sofreu uma sobrecarga térmica, senhor. A falha hidráulica foi catastrófica. Pode verificar os logs de erro.
O Inspetor caminhou até o console, mas Vane se interpôs, sua voz fria e autoritária dominando o ambiente. — Inspetor, se pretende investigar uma falha técnica, sugiro que comece pela negligência da equipe de manutenção que preparou o frame do cadete Valerius. O log do Sucata-7 está disponível, mas qualquer tentativa de apreensão sem uma ordem formal de auditoria será registrada como assédio acadêmico.
O Inspetor recuou, mas o brilho de ódio em seus olhos não diminuiu. — Você ganhou hoje, Kaelen. Mas o Sucata-7 será monitorado 24/7. Qualquer anomalia, e você será removido da academia por traição.
Quando a porta se fechou, o silêncio tornou-se opressor. Kaelen caiu sobre o chassi do mech. Ao tocar o compartimento onde o módulo estava escondido, sentiu uma ressonância estranha. O módulo não estava inerte; ele pulsava, reagindo ao ambiente de sucata ao redor. De repente, as peças metálicas espalhadas pelo chão começaram a vibrar, atraídas pela frequência do artefato. O módulo estava buscando algo, tentando se completar, enquanto um novo alerta de segurança, desta vez de nível máximo, começou a ecoar pelos sensores da Cidadela. Ele não estava apenas escondendo tecnologia roubada; ele estava despertando algo que o Conselho temia: uma máquina que se reconstruía sozinha.