O Duelo de Honra
O ar no Hangar 4 era denso, saturado com o cheiro metálico de ozônio e o calor irradiado pelo Sucata-7. Kaelen sentia a pulsação do módulo experimental contra sua própria espinha; era uma conexão neural invasiva, um parasita de silício que exigia um preço alto demais em troca de performance. Ele tinha exatamente cento e oitenta segundos antes que a equipe de inspeção da Cidadela, enviada sob ordens diretas de Rico Valerius, rompesse as travas de segurança.
— O alinhamento dos logs está colapsando, Kaelen — a voz da Dra. Vane soava seca pelo comunicador, vinda das entranhas do laboratório clandestino. — Se eles rodarem o diagnóstico profundo, a assinatura da nossa invasão de ontem será a primeira coisa a brilhar no monitor. Você precisa que a sabotagem de Rico pareça um erro de manutenção dele mesmo durante o teste de estresse.
Kaelen não respondeu. Seus dedos, ágeis e calejados, dançavam sobre o console. Ele não estava apenas apagando rastros; estava reescrevendo a história do frame. Ele forçou o sistema a sobrepor os registros de erro de Rico sobre a falha hidráulica que ele mesmo havia reparado. Era uma aposta de alto risco: ao culpar a negligência de Valerius, ele não apenas se protegia, mas expunha a incompetência técnica do rival diante do Conselho. O custo, contudo, era imediato. O Sucata-7 gemia, com as juntas metálicas rangendo sob o estresse térmico. O módulo, faminto, drenava a energia dos sistemas de suporte.
O alarme da Cidadela cortou o silêncio, um som estridente que anunciava o Duelo de Honra. O tempo de preparação havia acabado.
O Coliseu era um caldeirão de luzes e vaias. A multidão, composta pela elite da academia, rugia em uníssono, um som que Kaelen sentia como um insulto pessoal. À sua frente, o "Áureo", o mech de Rico Valerius, brilhava sob os holofotes. Era uma obra-prima de engenharia, polido e letal, que fazia o Sucata-7 parecer um amontoado de lixo industrial.
— Desista, sucateiro! — a voz de Rico sibilou pelos alto-falantes da arena, carregada de um desprezo que escondia o medo de perder seu status. — Vou transformar esse seu amontoado de ferro em sucata de verdade.
Rico disparou. Rajadas de plasma cortaram o ar, forçando Kaelen a manobrar de forma errática. O Sucata-7 trepidou. A falha hidráulica forjada, agora uma arma, fez o braço esquerdo do mech sacudir violentamente, desviando o tiro por milímetros. Kaelen sentiu o calor subir no cockpit; a temperatura do módulo estava atingindo níveis críticos. Ele precisava de uma abertura.
— Ele está esperando que você tente o ataque direto — Vane avisou, sua voz tensa. — O Áureo tem sensores de antecipação. Não jogue o jogo dele.
Kaelen cerrou os dentes, ignorando a dor da queimadura que subia por seus nervos. Ele acessou o diretório root do módulo. "Eu não preciso de intervenção," Kaelen rosnou, o vapor de resfriamento cegando sua visão periférica enquanto ele forçava o desvio de energia do sistema hidráulico para o núcleo neural. O Sucata-7 não apenas se moveu; ele saltou, uma manobra impossível para um frame de sua classe. Com um movimento preciso, ele desarmou o sabre de plasma de Rico, expondo o núcleo do Áureo à falha de manutenção que Rico tentara esconder. O público silenciou quando a armadilha de Kaelen se fechou: o próprio mech de Rico entrou em colapso, as travas de segurança falhando sob o peso da sabotagem revertida.
O apito final da arena ecoou, abafado pelo chiado do Sucata-7. Kaelen venceu, mas o mech travou no centro do campo. A sobrecarga térmica não era mais um aviso; era uma realidade física que paralisava o sistema.
— Kaelen, saia daí agora — a voz de Vane soou, carregada de terror. — O sensor detectou uma equipe de inspeção do Conselho. Eles não estão vindo para uma revisão. Estão vindo para confiscar o frame.
Kaelen forçou os controles, mas o sistema estava morto. Ele tinha dez minutos antes que os guardas bloqueassem o hangar. Ele precisava extrair o módulo antes que a carcaça vazia fosse apreendida, ou todo o seu sacrifício seria em vão.