O Peso da Ascensão
O cheiro de ozônio e óleo queimado no hangar de baixa patente não era apenas o odor do trabalho duro; era o cheiro da minha sentença de morte. A luz âmbar do console de diagnóstico piscava com uma cadência irritante — uma contagem regressiva de seis horas para a inspeção oficial de Rico Valerius.
— Kaelen, pare de roer as unhas e olhe para o log — a voz da Dra. Vane cortou o ar estagnado. Ela estava debruçada sobre os cabos expostos do braço direito do Sucata-7, suas mãos enluvadas movendo-se com uma precisão cirúrgica que contrastava com a instabilidade do frame.
Eu me aproximei, sentindo o peso da exaustão nos ombros. O gráfico de telemetria mostrava uma queda abrupta na pressão hidráulica. Não era um erro de leitura. Era uma assinatura clara de sabotagem.
— Alguém alterou a válvula de alívio — murmurei, a raiva fervendo sob minha pele. — Eles não querem apenas que eu falhe na inspeção. Querem que o braço trave no momento em que eu forçar o motor, possivelmente explodindo o núcleo de energia junto.
— Não foi um amador — Vane respondeu, sem desviar os olhos dos circuitos. — A codificação da falha é sofisticada. Se você tentar uma manobra evasiva, o sistema vai colapsar.
Eu não tive tempo para o luto. Com um movimento decidido, arranquei um componente do meu próprio traje de voo reserva — um bypass de emergência que eu guardara para uma situação de vida ou morte. Era uma gambiarra arriscada; se a voltagem do módulo oscilasse, o choque poderia parar meu coração antes que a inspeção terminasse. Vane me olhou, seus olhos carregados de uma advertência silenciosa, mas ela não me impediu. Ela sabia que, sem aquele risco, o Sucata-7 seria sucata real em menos de seis horas.
Enquanto eu soldava o componente, o módulo experimental começou a emitir um zumbido agudo, um feedback térmico que me fez suar frio. O módulo não estava apenas processando dados; ele estava gravando meu estilo de luta, aprendendo meus reflexos para compensar a falha hidráulica.
— Ele está evoluindo, Kaelen — Vane sussurrou, observando os dados no monitor. — Mas o custo é a sua própria integridade física. O núcleo do frame está superaquecendo. Se você não equilibrar a potência com a estabilidade agora, o módulo vai fritar os seus sistemas nervosos junto com os circuitos do frame.
Eu forcei o Sucata-7 em uma simulação de manobra. A dor foi imediata, uma agulha de fogo subindo pela minha espinha, mas, na tela, o frame respondeu com uma precisão impossível. O ganho era visível: a Classe B estava estável, oculta sob uma camada de dados falsos que Vane ajudou a injetar. Mas o preço era alto. A temperatura interna do núcleo subia a cada segundo, forçando-me a ocultar os registros de operação proibidos enquanto a máquina gemia sob o esforço.
Com a inspeção iminente, entrei no terminal central da academia. O ar estava pesado, carregado com a tensão de quem sabe que está sendo vigiado. O sistema reconheceu meu código de acesso, o legado do meu pai, um técnico que morrera nas entranhas daquela mesma Cidadela. Busquei pelos logs de manutenção do turno da noite, e a assinatura digital de Rico Valerius saltou como uma ofensa. Ele não estava apenas sabotando um frame; ele estava garantindo que o Sucata-7 fosse descartado, apagando qualquer rastro de que o frame de um 'baixa-patente' pudesse superar um elite.
Eu estava prestes a apagar a evidência quando um diretório bloqueado chamou minha atenção: Projeto Herança. O nome da minha família estava lá, enterrado em uma pasta de dados corrompidos. A sabotagem no meu frame não era apenas uma rivalidade de cadetes; era uma peça em um jogo muito maior. Antes que eu pudesse decifrar o código, o sensor de sabotagem apitou com uma urgência metálica. O sistema de segurança da academia havia detectado minha intrusão. O tempo de seis horas acabara de ser reduzido para minutos. Alguém tinha acabado de alterar a pressão hidráulica do meu braço direito novamente, e desta vez, a armadilha estava armada para o momento em que a inspeção oficial começasse.