O Módulo Proibido
O ar no subnível 4 da Cidadela tinha gosto de ozônio e desespero. Kaelen estava sentado no cockpit do Sucata-7, com a nuca latejando onde o grampo neural se conectava à carcaça do mech. O cronômetro em seu visor projetava o tempo restante em um vermelho agressivo: 47:12:05. Menos de dois dias antes que o Conselho declarasse o frame obsoleto e o enviasse para o triturador.
— Kaelen, pare! — a voz da Dra. Vane estalou no canal privado, filtrada pela estática. — A taxa de transferência está em 140%. O hardware não foi projetado para isso. Você vai fritar o núcleo e o seu próprio cérebro junto.
Kaelen ignorou o aviso. Seus dedos, trêmulos, contornavam o painel de controle, forçando os limitadores de segurança a cederem. O módulo experimental — um cilindro negro, denso, que parecia absorver a luz da oficina — vibrava contra a espinha do mech. Ele não era apenas uma peça de reposição; era um artefato de uma era que a Academia tentava apagar.
— A inspeção de rotina chega em dois minutos, Vane — Kaelen sibilou, sentindo o suor frio escorrer pelas têmporas. — Se eu não provar que este frame ainda tem utilidade, serei reatribuído para a limpeza de esgotos. Não tenho escolha.
Ele puxou a alavanca de ignição. O Sucata-7 não rugiu; ele soltou um som gutural, uma frequência baixa que fez os dentes de Kaelen vibrarem. A interface neural disparou uma descarga azul pela sua coluna. Por um segundo, ele perdeu a visão do hangar. Em vez disso, viu a estrutura do mech como uma malha de dados, um mapa de falhas e potenciais que o módulo estava reescrevendo em tempo real.
O ganho foi imediato e brutal. O Sucata-7, antes um amontoado de metal pesado e lento, respondeu com a agilidade de um predador. Kaelen moveu o joystick. O mech executou uma manobra de esquiva lateral, um movimento de alta precisão que desafiava a inércia dos atuadores hidráulicos obsoletos. No monitor de diagnóstico, a nota de performance saltou de 'Inoperante' para 'Classe B'.
O custo veio logo em seguida. Uma pontada lancinante explodiu na base de seu crânio, e o cheiro de isolante térmico queimado inundou o cockpit. O sistema de resfriamento entrou em colapso, incapaz de dissipar o calor gerado pela aceleração neural. Kaelen ofegou, a visão embaçando, mas o placar de performance brilhava como um troféu.
Ao descer da plataforma, ele foi interceptado por Rico Valerius. O rival, impecável em seu uniforme de elite, inspecionava o Sucata-7 com um desprezo estudado, seus olhos procurando a falha que Kaelen acabara de esconder.
— Você alterou o sistema de exaustão — Rico disse, a voz destilando veneno. — Um Sucata-7 não deveria subir tanto na avaliação. O que você roubou da sucata para mascarar essa lata-velha, Kaelen?
Kaelen limpou o óleo das mãos, sentindo o calor do módulo ainda pulsando contra sua interface neural. A adrenalina do poder recém-adquirido era viciante, mas perigosa.
— Talvez o problema não seja o frame, Rico. Talvez seja a sua falta de criatividade em pilotar o que lhe dão — Kaelen respondeu. O silêncio no hangar tornou-se absoluto. Valerius estreitou os olhos, a fúria contida em cada fibra de seu corpo.
— A inspeção técnica oficial será feita em seis horas. Vamos ver o que está escondido sob essa pintura barata.
De volta à oficina, o confronto com Vane foi inevitável. Ela observava o módulo cravado na espinha neural do mech, seus olhos fixos na cicatriz que a tecnologia deixava na carcaça.
— Isso não é apenas um acelerador — Vane sussurrou, a voz cortante. — É uma chave de acesso para protocolos de combate da era pré-acadêmica. Se o Conselho detectar a assinatura de energia, eles não vão apenas confiscar o Sucata-7. Eles vão apagar você.
Kaelen olhou para o cronômetro em seu pulso. Faltavam quarenta e duas horas. Sem o módulo, ele era um erro estatístico; com ele, uma anomalia perigosa. Ele sentiu o peso da escolha, a certeza de que a mediocridade era uma sentença de morte mais rápida do que qualquer Conselho.
— Eles já estão olhando, Vane — Kaelen respondeu, firme. — Se eu recuar agora, serei expulso antes do amanhecer. Se eu avançar, pelo menos morro lutando.
Dra. Vane suspirou, um som carregado de derrota e medo.
— Se você usar isso, o conselho vai te caçar.
Kaelen não hesitou. Ele apertou o botão de ativação, selando seu destino enquanto o placar da arena, visível ao longe, começava a exibir sua ascensão. Rico Valerius, lá no topo, sorria. Ele finalmente tinha um alvo.