Sucata de Elite e o Relógio da Vergonha
O cronômetro holográfico suspenso no teto do Hangar 4 marcava 47:59:12. Quarenta e oito horas. Esse era o tempo que restava para Kaelen provar que o "Sucata-7" — uma carcaça de segunda geração que mais parecia um amontoado de placas de metal retorcidas do que uma máquina de guerra — não era apenas peso morto. Se falhasse, o destino seria as minas de extração de combustível, o cemitério de pilotos que a Cidadela descartava sem piedade.
Kaelen limpou o suor da testa com uma luva imunda de óleo sintético, ignorando a dor aguda nos dedos. Ele apertou um parafuso solto no atuador da perna direita, sentindo o metal ranger sob a pressão. A falha não era apenas física; era uma sentença de morte social.
— Ainda brincando de engenheiro, Kaelen? — A voz de Rico Valerius ecoou pelo hangar, carregada de um desdém polido. O rival caminhava flanqueado por dois cadetes de elite, suas armaduras cintilando com o polimento impecável de quem nunca precisou sujar as mãos por peças de reposição. — Acha mesmo que essa carcaça vai passar na inspeção de amanhã? O conselho já assinou a baixa do seu registro.
Kaelen não se virou. O silêncio era sua única defesa, mas Rico não aceitava o silêncio. Ele chutou a perna do Sucata-7, um gesto deliberado que fez a estrutura oscilar.
— Meu pai disse que sua família sempre foi boa em acumular lixo — Rico riu, os cadetes ao seu redor ecoando o escárnio. — Aproveite o tempo que resta. Amanhã, você será apenas um número em um relatório de sucateamento.
Quando os passos de Rico se afastaram, Kaelen soltou o ar que prendia. Ele não podia vencer Rico no braço, nem na política. Precisava de uma vantagem técnica que o Conselho não pudesse ignorar. Sem hesitar, ele trancou o hangar e seguiu para o setor proibido.
O laboratório subterrâneo da Dra. Vane cheirava a ozônio e graxa queimada. Vane, uma engenheira marcada pelo ostracismo profissional após a queda de seu laboratório experimental, encarou o ledger de manutenção que Kaelen jogou sobre sua mesa. As páginas estavam manchadas de óleo, e os registros de dívidas da família estavam expostos como uma ferida aberta.
— Você está maluco, garoto? — Vane disparou, sua voz cortando o zumbido dos ventiladores. Ela apontou para o módulo que Kaelen trazia. — Isso é um protótipo experimental de aceleração de processamento neural. Ele não foi feito para um chassi de série L. Se o sistema não aguentar, vai fritar seus sinapses junto com o motor.
— O Conselho já decidiu meu destino — Kaelen respondeu, a voz firme apesar da trepidação interna. — Se eu não provar que esse frame consegue superar os modelos de elite, eu perco tudo. Minha família, minha dignidade, meu futuro. A dívida não vai esperar a minha expulsão.
Vane encarou as lacunas no ledger. Ela sabia que, se Kaelen caísse, a última conexão com sua própria pesquisa seria destruída. Com um suspiro resignado, ela começou a soldar as conexões. O processo foi brutal; Kaelen sentiu cada centelha de energia como uma agulha em seu sistema nervoso. Ao final, quando o módulo foi integrado, o Sucata-7 não parecia mais uma máquina; ele emanava uma consciência fria e mecânica.
— Se você usar isso, o Conselho vai te caçar — ela avisou, os olhos brilhando com um terror reprimido. — Mas, se sobreviver ao teste, você terá o controle que eles nunca te deram.
Kaelen não respondeu. Ele apenas apertou o botão de ativação.
Na arena de provas, o ar era rarefeito, carregado com o cheiro metálico de ozônio. Kaelen sentiu o tranco do cockpit quando as travas se fecharam. Drones de combate pairaram, os canhões de plasma brilhando em um azul letal. Rico, da arquibancada, apertou o corrimão, o rosto pálido de expectativa.
— Atenção, cadete — a voz fria do instrutor ecoou. — O teste de manobra não admite falhas. Falhe e seu frame será desmantelado.
Antes que Kaelen pudesse comandar a aceleração, um formigamento elétrico subiu por sua coluna. O sistema de navegação foi sobreposto por uma sequência de código alienígena. O Sucata-7 disparou. Não como uma máquina, mas como um espectro de aço. O metal rangeu em protesto enquanto o frame executava um dash lateral, ignorando as leis da inércia.
Kaelen sentiu o estômago revirar; sua visão foi inundada por vetores de trajetória que calculavam o ponto cego de cada drone. Ele não estava mais pilotando; era um passageiro em um sistema que via a realidade como uma série de frações de segundo. O sistema de diagnóstico do mech piscou em vermelho: 'Módulo Desconhecido Detectado'. A porta da arena se abriu, revelando os examinadores, cujos rostos passavam da indiferença para o choque absoluto.